Culto Racional

O Culto Que Ninguém Entende

12:07Maicon Custódio



Ano passado li um texto do Renato Vargens falando sobre os “adoradores extravagantes” que saltam, urram, gemem, imitam um zoológico inteiro, rugem suas línguas estranhas, viram cambalhotas e fazem todo o tipo de arte circense que você possa imaginar para chamar um pouco mais da atenção do Soberano Deus. CONCORDO plenamente com Renato e por isso até postei o texto dele em meu antigo blog, e o negócio tem sido mesmo uma “papagaiada” sem tamanho.

Depois de ler o texto, acumular bagagem de liderança de igreja, me formar em algumas disciplinas com enfoque de culto, me inclinei a pensar como me causa náuseas o nível de envolvimento, ou a falta dele, nos cultos dos dias atuais e o pior é saber que isto não se resume aos “extravagantes carismáticos espiritualóides”, mas até os arraias ditos reformados, conservadores passam por esta crise.

Meses atrás eu estava em um culto e fiquei pasmo com a constatação de que os crentes andam totalmente desligados do culto do qual participam. O liturgista pediu a um irmão que fizesse uma oração de confissão de pecados e o irmão começou a orar – “Obrigado pelo pão (...) cure os enfermos (...) me guie em minha viagem de amanhã (...)” – e orou por tudo, menos pela confissão de pecados. No mesmo culto, o liturgista fez uma bela introdução falando e explicando sobre o teocentridade (Deus é o centro) daquele momento e de que tudo que se fizessem ali deveria ter a glória de Deus como o alvo. Cinco minutos depois um solista é convidado a cantar uma canção. Em sua ministração solta a pérola: “Esta música é dedicada à minha melhor amiga!”. Quase tive um colapso nervoso. Será que ele não ouviu o que o irmão tinha acabado de falar na liturgia? Talvez ele não estivesse na igreja ainda ou estava jogando no celular, pois não é possível que uma pessoa que tenha ouvido uma excelente explicação sobre a motivação de um culto dedique uma canção no meio dele à sua melhor amiga! E para piorar ele cantou um mantra que na letra repetia (nas minhas contas) a mesma expressão por mais de vinte vezes!

Imagine você que é pai (parafraseando Mark Driscoll) se seu filho chega para você para fazer uma declaração de amor e começasse a cantar: “Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo! Pai eu te amo!” Talvez você dissesse: “Filho, eu sei que você ama o papai, mas não precisa ficar repetindo tanto assim!”.  Creio que o sentimento de Deus não seja tão distante disso, pois a própria Escritura condena as vãs repetições.

Caro leitor, a cada dia eu me pergunto mais: onde está o culto racional que Paulo disse? Aquele culto no qual eu deveria entender o que está acontecendo, porque está acontecendo e que no fim das contas tanto o meu intelecto, quanto as minhas emoções e o mais íntimo da minha alma seria atingido e impactado pelo Espírito? Mesmo nas igrejas ditas reformadas e tradicionais isso tem se perdido, digo isto porque este é o meio em que vivo, e nós, tradicionais, adoramos jogar pedras em carismáticos e suas loucuras circenses. 

O crente tem ido para um culto, participa da ginástica do senta e levanta, mas – como dizemos aqui em Minas – não sabe nem para que lado está ventando! Isto tudo não é culpa da igreja, mas dos pastores que não ensinam sobre a importância do intelecto no culto, sobre a conexão das idéias, sobre a necessidade de se participar do culto como um todo e não como se tivéssemos vários “cultinhos”, sendo o louvor um deles, a pregação o outro e por aí vai...

Esta falta de posição por parte dos líderes permite e fomenta a idéia de que um dirigente de louvor é um levita (aff!) que pode ficar falando durante 20 minutos antes de cada canção ou ainda ficar lançando profetadas e imprecações na vida dos ouvintes. Além disso, os caras acham que são popstars e o guitarrista com a sua guitarra psicodélica parecendo uma versão gospel e metrossexual do Hendrix, com sua calça apertada e camisa com gola em V até o meio do peito, extravasa nos seus solos! Aleluia! Não bastasse toda a problemática com quem é responsável por conduzir a congregação ao louvor, a música que se canta tem uma letra que preza pelo existencialismo, narcisismo e egocentrismo. Elas dão um tapinha nas suas costas e dizem: “Vai lá campeão, você é o cara!”. E o povo salta, pula, grita, chora e cantarola: “por todo lado sou abençoado! [...] dá vontade de pular, dá vontade de dançar, da vontade de gritar e dá vontade de correr! [...] a minha vitória tem sabor de mel [...] faz um milagre em mim!”.

Estes são os mesmos pastores que não usam o púlpito para pregar auto-ajuda e mensagens existencialistas recheadas de massagens aos egos dos crentes. Falta Bíblia, falta Jesus, falta compreensão, falta ordem, falta decência, falta arrependimento, falta confissão, falta amor pelas almas, falta Evangelho, falta tudo! Existe mecânica de igreja, cara de igreja, forma de igreja, mas está longe de ser a noiva de Cristo, pois EM NADA busca a sua glória.
Instigue os crentes a pensar, buscar conhecimento, instrua-os a entender o que se crê, não seja um extravagante, não seja um fundamentalista. Seja cristão! Prosseguindo em conhecer a Deus, O amaremos cada dia mais...

Nele, que me deu mente para raciocinar, entender, pensar, questionar, criar, criticar, julgar e reter o que é bom,

Maicon.

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5 comentários

  1. Vc está certo nessa observação que os crentes andam totalmente desligados do culto do qual participam. Mas culto racional é apresentar os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, Rm. 12:1, culto racional não é a cerimônia DO OSCAR, é só Rm 12:1.

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  2. Ótimo artigo. Um erro que vejo na maioria dos cultos é que eles são meramente "observativos" para a maioria dos membros. No Novo Testamento podemos ver que o culto era essencialmente participativo, ao contrário do modelo "púlpito-platéia" que vemos hoje. Infelizmente, uns 10% dos membros das igrejas participam de verdade do culto, contribuindo, afinal, devemos nos edificar uns aos outros. A edificação não pode vir só de alguns. Se a maior parte dos membros do Corpo está inativa, é forçoso admitir que esse Corpo está doente. Então, minha dica ao líder é: estimule as pessoas a participar e contribuir no culto, seja com uma oração, um testemunho, um cântico ou uma palavra. E tem mais, devemos adorar a Deus e não a pregação. Explique-se: parece que no momento da pregação o pregador vira Deus, e ninguém pode questionar, sugerir, comentar, exemplificar, pois seria um desrespeito. Vamos olhar para as Cartas aos Coríntios, e veremos como culto lá era participativo. E claro, tudo com ordem e decência, se algum irmão falar alguma besteira, o pastor depois corrige, sem problemas.
    Grande abraço, meu irmão!
    @BroderJames

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  3. Agora entendi porque a Wilma e o Daniel gostam tanto de você! Seu texto e sua reflexão foram maravilhosas! Parabéns pelo olhar crítico, sincero e verdadeiro!

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  4. Fala Rev Maicão!
    Pois é cara... concordo com o que disse. Falta Bíblia, falta Evangelho e falta pregação séria e com o objetivo correto em muitos lugares.
    Mas eu acrescentaria um ponto: Falta busca séria pelo enchimento do Espírito Santo.
    Alguns pastores até se esforçam em ensinar, mas não se esforçam em promover no meio do povo uma busca séria e quebrantada por Deus.
    E grande parte dos crentes nas igrejas tradicionais hoje é de crentes frios, que não oram, que não têm experiências com Deus, para quem o culto é apenas um momento religioso de domingo.
    Vivemos uma vida espiritual sem relevância e sem eco no dia a dia da igreja.
    Por isso chegamos no culto de domingo e vemos uma igreja cheia, porém morta, apagada, fria, nauseante!

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  5. Verdade, Thiagão!

    Você, como sempre, tem uma percepção ampla do que acontece, o Espírito quando é buscado é ainda buscado de forma errada!

    Abraços

    Saudade de vc, amigo

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Apenas me conservarei no direito de não responder ANÔNIMOS e conseqüentemente deletar seus comentários.

Na paz do Eterno.

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