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Amazônia: O que Eu Trouxe de Lá?

16:04Maicon Custódio




Olá pessoal,

Se você é visitante constante deste blog provavelmente sentiu a minha ausência durante algum tempo. Foram dias de viagens, casamentos, conferências, provas e por fim o fato de que entre quinta-feira passada e a ultima segunda-feira estive na cidade de Manaus-AM visitando, conhecendo pessoalmente os trabalhos no Projeto Amanajé (significa Mensageiro). Este é um projeto que desenvolve trabalho missionário ao longo do estado do Amazonas, especificamente entre os indígenas. Deus tem sido grandioso e as bênçãos que vimos e vivenciamos naquele lugar são incontáveis e de certa forma indizíveis. O que vimos, sentimos e ouvimos é difícil de se expressar com as palavras, mas tentarei transmitir um pouco a vocês. 

Abaixo vou relatar algumas destas incontáveis experiências e gostaria de lhe fazer um pedido: POR MAIS QUE O TEXTO ESTEJA LONGO LEIA-O POR INTEIRO!

Nossa visita a Manaus, primariamente, era para cumprir os requisitos práticos da disciplina de Teologia de Missões que faz parte da grade do nosso último ano de Teologia aqui no Seminário. Mas, como já imaginávamos, Deus tinha mais para nós do que simplesmente um trabalho acadêmico... muito, muito... muito mais mesmo! 

Esta viagem serviu para aumentar o grau de relacionamento da turma – que já era invejável – serviu também para nos aproximar de nossos professores (três deles foram conosco), pois aprendemos entre risadas e conversas, no barco à beira do rio, algumas coisas que nunca seriam transmitidas a nós na frieza metódica de uma sala de aula. A viagem serviu também para moldar o nosso coração, a nossa alma e nos fazer compreender que o culto, o evangelho e a teologia mesmo sendo inegociáveis, possuem elementos extremamente culturais e que em nada ferem a grandiosidade de Deus e a maravilha que é estar Nele e perceber que todas as culturas, do seu jeito, o louvam, quebrantados e com coração contrito mesmo que a nós parece, no mínimo, diferente.

A viagem serviu para me fazer conhecer o Sr. Ribamar, digo, PASTOR RIBAMAR (tudo maiúsculo mesmo) pois neste homenzinho de 1,50m encontrei grandeza tal qual a de Golias, fé que move montanhas e amor por almas que em alguns momentos me envergonhavam em reconhecer que nunca amei tanto assim ao rebanho ao qual o Senhor me confiou. O Pr. Ribamar não tem curso de teologia, mora na casa simples e de madeira à beira do Rio Tarumã, se veste de forma simples, não é um letrado na língua portuguesa, mas é o pastor do coração de toda aquela gente. Plantador de igreja nas comunidades ribeirinhas. Com meus olhos pude ver três, mas, creio eu que, provavelmente tenha mais.

Eu e Rômulo com o Pr. Ribamar. Um gigante de Deus naquele lugar.

Conheci Ana, Moisés e José, os missionários da JOCUM que, em seu próprio barco – da JOCUM-, nos levaram, hospedaram, guiaram e cuidaram em cada passo que demos na Comunidade Nova Esperança e na Imigrantes. A vida deles é de esforços e muito amor por toda aquela gente. Andamos 20km a pé no domingo pela manhã para irmos à escola dominical, entre floresta, estrada de chão, trilhos e a costumeira chuva da Amazônia, mas nada conteve a alegria, a emoção e no meu caso, as lágrimas ao chegar lá e ver estes sorrisos.

A criançada na EBD da Comunidade Imigrantes. Foram 20km de caminhada, mas estes sorrisos e a satisfação destas crianças em conhecerem e louvarem a Jesus fizeram valer cada passo.

Ainda sobre a Ana, podemos observar que vai a pé com as pessoas para a igreja, apesar da possibilidade de ir de veículo por uma estrada de chão (apesar de ser um pouco mais longe e ser caro), simplesmente por querer se sentir parte da comunidade e por desejar que eles também a vejam como tal e só não mora lá ainda por uma única questão: não tem condições de construir sua casa lá, pois é mulher, moraria sozinha e além disso, não é tão barato construir uma casa. Entre os gastos de Ana, Moisés e José estão a necessidade de custear sua estadia, alimentação e despesas enquanto moram na base da JOCUM e via de regra as ofertas e sustento que têm não ultrapassam em muito o que lhes é necessário para cobrir estas despesas. O que fica claríssimo é que acima de qualquer questão financeira, existencial ou de ego está o amor à obra e às pessoas. Me emociono em falar deles. Muito mesmo!

Jardel, o líder de nossa turma, agradecendo e orando por Moisés, Ana e José.
  
Outras duas pessoas que me marcaram grandemente nesta viagem foram o Pr. Márcio, que atualmente é o líder do Projeto Amanajé, haja visto que o Rev. Ronaldo Lidório viaja muito dando suas palestras e divulgando o trabalho. Digamos que "o cara" do projeto atualmente é o Márcio. Conversar com ele foi ouvir sobre as grandes histórias de um cara que tem certeza da vocação e que mesmo quando as coisas pareciam conspirar para que ele não ficasse no campo, entre os indígenas ou no projeto, sempre deixou claro para o próprio Deus que o seu desejo não era continuar administrando restaurantes (depois de já ter passado por experiências no campo e saído) mas voltar para o meio dos indígenas. Andar com ele foi gratificante e desafiante, pois o homem é verdadeiramente um servo consagrado de Deus e convicto de seu ministério. A outra pessoa que me marcou bastante foi o índio Domingos Tikuna. Um índio que se converteu no meio da mata mesmo, há mais de 25 anos, é o missionário do Amanajé atualmente entre os Tikuna, juntamente com sua esposa, Marta. O que mais me fascina em Domingos é a pureza da sua fé, e a sinceridade do seu amor. Ver o sorrisão aberto daquele jovem senhor de 42 anos, receber um abraço dele ou ouví-lo falar com seu português simples é de ficar arrepiado, pois enxergamos o retrato da humildade de alguém que realmente vive o que prega e prega o que vive!

Ramon com Marta e Domingos Tikuna, missionários entre os índios Tikuna.

Pr. Márcio enquanto nos mostrava a história e as estatísticas acerca do Amanajé.

Conclusões

Esta viagem mexeu comigo em muitos sentidos, amigos, mas nada se compara à nova visão do campo missionário que acabei criando. Amanhã, pela graça de Deus, pegarei meu diploma, muito provavelmente assumirei uma igreja, enviarei missionários ao campo, participarei de seu sustento, mas cheguei à conclusão de que isso tudo é muito pouco.

Tudo que vivenciei me fez entender que preciso ir até onde está o missionário que minha igreja sustenta, conhecer seu campo, conhecer sua família, sua realidade, caminhar com ele, pastoreá-lo, amar e cuidar de sua família, me tornar parte da vida dele e fazer com que a minha igreja não seja apenas uma "enviadora' de missionários, mas que participe ativamente da vida deles. Quero ser a cada dia mais, um pastor de missionários, cuidar deles, pois suas lutas são grandes e olhando de longe é fácil criticar, dizer que o campo não cresce. É fácil negar verba quando não se tem noção de que um pacote de 5kg de açúcar em Manaus pode chegar a custar R$ 21,50 (3 vezes mais do que aqui no sudeste) ou uma caixa de leite integral pode custar até R$ 3,69.

Eu jamais saberia de coisas assim se não tivesse ido ao Amazonas, se não tivesse pegado um barco e ido para a beira do rio, lavar igreja carregando latas de água do rio, caminhar muito para poder cultuar, sentido no meu bolso o tamanho do desafio de administrar um orçamento naquela cidade, se não tivesse sentido o calor escaldante e sido picado por alguns pernilongos.

A conclusão que cheguei foi esta... preciso e muito de me converter e convencer a cada dia de que missões são urgentes, mas isso não implica em despreparo e desleixo. Exige amor, preparação, cuidado, zelo, dinheiro e mais um monte de coisas que não iriam caber neste texto.

Espero ter conseguido transmitir pelo menos um pouquinho do que vi, senti e trouxe de Manaus e louvo a Deus por ter me dado esta oportunidade e por ter moldado o meu coração.

Nele,

Maicon.
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PS: Os professores que nos acompanharam:

Rev. Cássio Campos, professor de Teologia de Missões no Seminário Teológico Presbiteriano de Belo Horizonte. Um homem que marcou profundamente a vida de cada um dos alunos de nossa turma. Infelizmente, não teremos mais nenhuma disciplina ministrada por ele no segundo semestre.

Rev. Valdir Cunha, diretor do Seminário e Rev. Manassés Villaça, coordenador do curso. Esses dois  jovens senhores se mostraram ótimos companheiros de viagem e a mim, particularmente, dois fascinantes professores de vida e ministério das boas conversas que pudemos ter.


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13 comentários

  1. Maicon, muito bom, cara. De coração, fico muito feliz que essa viagem tenha sido de tamanho proveito para vocês. Certamente uma viagem dessas não poderia "apenas" valer para cumprir créditos no seminário, mas para cumprir o propósito de Deus em seus ministérios 'amanhã', com uma nova visão de mundo, diferente da que vivemos rotineiramente. Pelo seu texto e pelo o que conversamos, percebemos mais uma vez que o amor a Deus exige simplicidade e humildade.

    A vontade que me transmitiu era de ter ido com vcs, pra poder conhecer de perto a força do poder de Deus e de seus filhos agindo em povos e culturas tão diferentes.

    Deus abençoe a você, aos seminaristas, professores que os acompanharam e aos missionários brasileiros que levam o evengelho aos nossos conterrâneos carentes da palavra de Deus.

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  2. Cara,

    Valeu mesmo, mano!
    Prometo te manter informado e convidar quando eu for voltar para lá um dia...

    Ore sempre por missões!

    Abração

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  3. terminei de ler e queria ler mais (:

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  4. Admito que também tinha vontade de escrever mais, mas acontece que chega um ponto em que a gente nota que as palavras não vão servir pra expressar o que a gente viveu e sentiu enquanto esteve lá, sabe...

    O tratamendo de Deus foi tamanho!

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  5. Grande aprendizado, heim irmão.

    Abraços e bom ministério pastoral, e parabéns pela conclusão do curso.

    Tiago Vieira

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  6. Vlw, Tiago.

    O ministério vem aê. Só Deus mesmo para nos dar a graça de sermos segundo o coração Dele...

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  7. Cara, tô achando que vou montar nesse texto ehimmm. Um abraço, que Deus continue despertando-nos e preparando-nos para tão grande obra. (At 20.24)é o lema de um apóstolo que sabe o que é fazer missões. Ele falou muito ao meu coração há mais de 15 anos, estou na mesma batida.
    Vamos juntos nessa!

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  8. Amém Janjão.

    Você não tem noção de como ficou o meu coração quando ouvi você e Jessé falando em voltar pra lá... Quase chorei, de coração mesmo!

    Deus abençoe vc com esse seu coração enorme. Que te use como tem usado tanto em nossas vidas.

    Só vê se não vai deixar a mala pra trás da próxima vez que for pra lá, rsrs

    Abração

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  9. Meu irmão, certamente o que você relatou traduz um pouco do que Deus nos concedeu naquele lugar naqueles dias, contudo, este é o melhor que poderíamos dizer, visto que o que recebemos de Deus ali é indescritível... só sabe quem esteve lá... louvado seja Deus por isso!
    Creio que o nosso crescimento se deu unicamente pela generosa graça de Deus, que agradou-se desta turma que desde o primeiro ano se dispôs a aprender e colocou o coração na obra. louvo a Deus por fazer parte desta turma.

    Muito bom o seu artigo.

    Deus te abençoe sempre!

    Abração!

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  10. Quisera eu ter palavras tão belas quanto as suas, presida!

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  11. Maicon, lendo e relendo seu relato me lembrei de uma grande experiencia q tive visitando o trabalho missionário na missão Caiuá.Experiência q jamais esquecerei e cada vez procuro trabalhar mais, pois a realidade é dura demais.
    Seu artigo está tão verídico q cheguei a imaginar cada cena!!
    Q Deus confirme em seu coração a idéia de não ser apenas mais um!
    Abração
    Eliane Menezes

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  12. Já fui visitar alguns projetos missionários e sempre me supreendo o quanto é simples pregar a palavra de Deus, como as pessoas amam o que tão fazendo e como esse amor transborda!

    Existe esse romance que o campo missionário é algo mágico, mas na verdade são só pessoas um pouco, ou muito, diferentes de vocês, mas, apesar das diferenças, tem necessidades iguais a tua, comida, lugar pra morar, sustento, educação, dignidade e amor.

    Ótimo texto, que Deus te abençoe nessa caminhada!

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  13. Eliane e GSTV, obrigado pelos comentários, obrigado pelo apoio e pelo reconhecimento!

    Abração

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Na paz do Eterno.

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