Bíblia Canon

Constantino "Fez" a Bíblia?

22:29Maicon Custódio



Este senhor aí, para quem não conhece, é o ator inglês Ian Mckellen. Sou um grande admirador de seu trabalho, principalmente pelos papéis que já interpretou. Ele conseguiu a façanha de interpretar alguns dos personagens que mais marcaram a minha vida como leitor. Dos gibis dos X-Men ele assumiu o preconceituoso Magneto; das cativantes páginas de O Senhor dos Anéis ele é o poderoso mago Gandalf e das polêmicas religiosas do Código da Vinci de Dan Brown ele é o Sir Leigh Teabing, um historiador cético e que admite que Maria Madalena e Jesus tiveram um caso e inclusive uma descendência. Vejamos uma de suas falas mais ‘interessantes’ no filme/livro de Dan Brown.


“A ironia fundamental do cristianismo! A Bíblia, tal como hoje a conhecemos, foi coligida por um pagão, o imperador romano Constantino, o Grande. Em 325 d. C. resolveu unificar o império sob uma única religião: o cristianismo. A Bíblia é um produto do homem, minha querida, não de Deus!”



Trata-se de uma exposição de Sir Leigh Teabing a Langdon e Sophie, na qual ele demonstra a ‘farsa’ do Cristianismo e de seu Livro Sagrado. Pra quem não conhece a história do Cristianismo os argumentos de Teabing são fantásticos e podem, sem sombra de dúvida, mostrar quão ridículo é postular que um livro seja Palavra de Deus já que foi compilação de um bando de marionetes de Constantino.

Pensemos juntos então. Segundo o texto de Dan Brown a Bíblia teve assumida a autoridade desses livros e esta formulação canônica no século IV, certo? Olhando para a história da formação do cânon poderemos observar vários fatos que demonstram que Constantino não impôs qual seria o texto da Escritura, mas simplesmente reuniu homens capacitados para formularem um cânon e com isso, temos a Bíblia com estes 66 livros desde o fim do século II e no mais tardar início do século III. Quanto ao Antigo Testamento não me aprofundarei muito, pois ele era o texto usado pelo próprio Cristo (inclusive hoje temos acesso a cópias mais antigas do que as dos tempos de Jesus) e pelos judeus até ao dia de hoje, apesar da distribuição (ou divisão) diferente.

Quanto ao Novo Testamento temos alguns fatores que advogam em favor da autoridade de um livro. Dentre eles podemos citar a aceitação dentro das comunidades cristãs do primeiro século, conformidade doutrinária com os demais escritos, testemunho dos Pais da Igreja que eram teólogos dos primeiros séculos e muitos deles eram discípulos diretos dos apóstolos de Jesus. Quanto a isso observemos algumas questões.

Policarpo, um pai da igreja da metade do segundo século já mencionou quase todo o Novo Testamento em seus escritos, provavelmente antes do ano 150 a.D. ele deixou fora de suas alusões os seguintes livros: 2 Timóteo, Tito, Filemon, Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João e Apocalipse. Um contemporâneo dele, chamado Irineu de Lião deixa de fora apenas Filemon, Tiago, 2 Pedro e 3 João, ou seja, antes do fim do segundo século, apenas quatro livros ainda não eram reconhecidos como inspirados e de total autoridade dentro da igreja cristã. Porém, no início do século IV, talvez até o ano de 315 a.D. um Pai da Igreja de nome Atanásio já havia reconhecido TODOS os livros do Novo Testamento como inspirados por Deus o que nos mostra que, pelo menos, 10 anos antes de Constantino os Pais da Igreja já haviam sacramentado o cânon como hoje o é.

Além do testemunho dos Pais da Igreja podemos também recorrer aos cânones dos primeiros séculos que, nada mais eram, do que as ‘Bíblias’ da época ou os livros ajuntados por determinado grupo de crentes para tê-los como seu manual litúrgico e regra de fé. O Códice Muratório (ou Muratori) datado do ano 170 a.D. contava em seu conteúdo com todos os livros do Novo Testamento exceto os de Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro, porém o Barocócio que é de 207 a.D. conta com todos a exceção de Apocalipse, que já fazia parte de 90% dos outros cânones usados na época, inclusive do Muratório que acabei de citar. Esses dados históricos só servem para nos mostrar que de modo algum Constantino, no século IV, teria sido quem ‘demarcou’ quais livros fariam parte do cânon, pois no ano de 207 a.D. ou no mais tardar 315 a.D. TODOS os livros que temos nas nossas Bíblias (protestantes, reformadas, históricas) atualmente já eram de uso da igreja e que Constantino não teve qualquer relação com esta escolha, pois os líderes da igreja da época o fizeram antes mesmo de qualquer concílio que só serviu pra definir uma regra geral.

É fato que Constantino convocou e patrocinou o Concílio, que algumas (e muitas) lacunas doutrinárias ficaram abertas, mas a questão canônica, da forma exposta por Dan Brown, chega a ser um erro infantil e digno de alguém que não fez qualquer questão de se informar acerca da verdadeira história da formação do texto da Sagrada Escritura. A mentira de Teabing é mais uma das que os homens contam e peço a você, crente, fiel, piedoso e que se preocupa em defender as verdades bíblicas que busque sempre as informações desta natureza, pois isso é o que temos como mais forte argumento extra-bíblico para nos defendermos do mundo que nos ataca e avassala a cada dia.


No amor do Eterno,


Maicon.

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ORIGINALMENTE POSTADO EM MEU ANTIGO BLOG: Cristianismo Pensante

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14 comentários

  1. Concílio de Nicéia...

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Primeiro_Conc%C3%ADlio_de_Niceia

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  2. Queria entender o que o ilustríssimo anônimo quis dizer!

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  3. http://pt.wikipedia.org/wiki/Primeiro_Concílio_de_Niceia

    Leia um pouco sobre o concílio de Nicéia...

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  4. Sei bem o que é, quando foi, o que aconteceu e coisas mais sobre o concílio amigo... o que digo é que o cânon não foi fechado por Constantino, mas já era usado pela igreja tempos antes disso como o meu texto propôs.

    Quando quiser comentar da próxima vez, faça-me o favor de se identificar e dizer de fato o que pensa ao invés de ficar me deixando repetidos links.

    No Mestre,

    Maicon.

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  5. Crie um livro, nesse livro diga que o mesmo é a verdade absoluta e nada pode levar a vida perfeita se não for por esse livro.

    Nele insira o que você entende como padrão de vida. Pronto, você criou algo que não pode ser quetionado, e caso isso aconteça o livro o ensinará que quem questiona a autoridade e verdade do livro será condenado.

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  6. Só faltou 6000 anos de história, vivência, sofrimento, entrega, morte, martírio, santidade, amor, compaixão, hospitalidade e acima de tudo de um Deus que se fez homem.

    No resto, quase com cordo contigo... óh corajoso anônimo!

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  7. Segundo, Mark Twain, a Bíblia, retrata Deus como um 'HOMEM' de impulsos maus muito além dos limites humanos, sendo classificada por ele como a BIOGRAFIA mais condenável já vista. No Antigo Testamento Ele é mostrado ou se mostra como sendo injusto, mesquinho, cruel e vingativo, punindo crianças inocentes pelos erros de seus pais, descontando sua vingança em ovelhas e bezerros inofensivos, como punição por ofensas insignificantes. Infelizmente, tenho que concordar com ele. Afinal que Deus bom é esse que só faz o mau? Desse jeito Lucifer não precisa fazer nada, basta assistir Deus trabalhando. Eu não posso aceitar esse Deus da Bíblia.
    itacysouza@ig.com.br

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  8. Caro anonimo, ao invés de criar um livro por que não usar esse mesmo, no entanto alterando a palavra Deus para "Superman" (o super herói) e dê este livro para uma pessoa que nunca leu a Bíblia tecer seus comentários após lê-la. Certamente irá considerar o "superman" como sendo a pessoa mais EDIONDA do mundo, Mas (bendito mas!) se voce disser que tudo aquilo que ela leu se refere a Deus; como essa pessoa irá reagir?
    - Será que esse julgamento poderá ser diferente uma vez que os fatos são os mesmos e só o que mudou foi seu autor?
    A coisa continua muito feia, pior ainda para esse Deus!

    itacysouza@ig.com.br

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  9. Gostei muito Maicon, já estudei a história da igreja, mas lendo sua publicação vi que pouco sei da igreja do oriente, isso me despertou uma certa curiosidade...

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  10. Ainda não tinha lido este artigo Maicon. Muito bom. Sintético e direto. Vou sugerir como leitura para minha turma no seminário.

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  11. Excelente texto. E hilários, os comentários do valente anônimo,principalmente as citações da Wikipédia!

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  12. Caro Maicon,

    A história secular do cristianismo nada tem a ver com Atos nem com os evangelhos. Nos dois links abaixo explico o porquê.

    http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/a-antiga-dec-ncia-crist
    http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/e-o-mundo-ocidental-quase-foi-judeu


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  13. Mas ele estava certo. Quem criou a bíblia cristã foi ou Constantino ou a própria Igreja católica. As cinquenta bíblias de Constantino eram bíblias em lingua grega, que foram encomendadas pelo imperador Constantino I, e preparadas por Eusébio de Cesaréia. Elas foram feitas para o uso do bispo de Constantinopla, devido ao crescimento das igrejas ortodoxas. Isso é descrito por Eusébio em seu livro "A vida de Constantino", e esta anotação é a única fonte sobre a existência dessas bíblias.

    Especula-se que a confecção destas bíblias tenha motivado o desenvolvimento das listas canônicas (dentre as quais a Bíblia cristã é originária), e que o Códice Sinaítico e o Códice Vaticano sejam possíveis sobreviventes destas bíblias.

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  14. Odin, andarilho longinqüo, conceda-me sabedoria,
    Coragem, e vitória.
    Amigo Thor, conceda-me tua força.
    E que ambos estejam comigo.

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Apenas me conservarei no direito de não responder ANÔNIMOS e conseqüentemente deletar seus comentários.

Na paz do Eterno.

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