Pastor Vida Cristã

Desabafo de Um Pastor

12:39Maicon Custódio



Se assim Deus permitir, a partir de dezembro deste ano, no mais tardar em janeiro do próximo, serei ordenado pastor presbiteriano. Por isso, resolvi escrever este texto enquanto ainda não sou ordenado - apesar de já desempenhar alguns dos ofícios que serão citados - falando sobre o pastoreio, pois se deixasse para escrever depois poderia parecer que estava "legislando em causa própria".



Este post foi motivado por um e-mail que surgiu em uma das listas que participo, onde alguns irmãos, mal intencionados, começaram a falar do salário dos pastores. Uns questionando se era viável pastor ter salário, outros dizendo que pastor ganha dinheiro demais, haja visto que apenas dirige três ou quatro eventos de pouco mais de uma hora e meia por semana, enquanto os demais "profissionais" da lista cumpriam pelo menos quarenta horas de rotina trabalhistas semanais.



Antes de continuar preciso fazer dois esclarecimentos: 1) quando eu disser a palavra pastor nesta postagem não analise-a tendo em vista os picaretas da fé, mas os que verdadeiramente amam a Jesus e à obra Dele; 2) A questão salarial no referido e-mail foi fomentada pelo fato de que na Igreja Presbiteriana do Brasil existe um piso salarial estipulado, que normalmente é algo entre cinco e seis salários mínimos (o que, convenhamos, é um bom salário). Dados os esclarecimentos, deixe-me falar o que de fato quero dizer.

Sem aquela hipocrisia do não toque no Ungido do Senhor quero aqui traçar um desabafo que meio que é uma defesa de quem tem 25 anos de idade e há mais de 10 conhece de perto a realidade de obreiros de real compromisso e amor pela obra. Então, vamos lá:


Pastor trabalha pouco e ganha muito

Este é o argumento mais furado da História. Se você acha que o trabalho do seu pastor se limita a três ou quatro pregações semanais, está redondamente enganado. Vamos listar algumas coisinhas? 

Sabe aquela lista de oração enorme que aparece no boletim da sua igreja e que você provavelmente não ora por nenhuma daquelas pessoas? O pastor, provavelmente já visitou e orou com todas elas no mínimo umas três vezes. 

Lembra daquele irmão que morreu num trágico acidente de carro e que você nem quis entrar no velório pra guardar apenas as boas lembranças dele? O pastor tinha ido ao IML reconhecer o corpo com algum membro da família, correu atrás de toda a papelada de certidões em cartórios em toda a cidade, além de ter passado a noite em claro cuidando daquela família que tanto sofria.

Você é daqueles que odeia hospital e dá náuseas só de imaginar entrar em um, por isso espera o irmão voltar para a casa para depois visitá-lo, certo?  O pastor visita os doentes com frequência nos hospitais, ora com eles, dá apoio à família, ministra-lhe a Ceia do Senhor.

Ouviu a velha frase de que em briga de marido e mulher ninguém mete o  colher? Pois é, cara pálida... o pastor entra nessas brigas, se reúne com o casal, conversa separadamente, aconselha, ora, indica livros, luta pelo casamento e convívio do casal. O telefone dele já tocou altas horas da noite com uma mulher do outro lado da linha falando que está sendo agredida pelo marido.

Já notou como você é seletivo quanto às programações da igreja? Você, normalmente, só vai no que te agrada. O pastor, via de regra, está em todas elas, pregando, auxiliando, ajudando, orientando, liderando ou simplesmente assistindo.

Leitor querido, lembra daquelas vezes que você reclama que o pastor pregou tempo demais. E ainda tem alguns irmãos que dizem que é muito fácil essa coisa de falar uns 40 minutos. Só não se esqueça que um sermão decente leva no mínimo umas cinco ou seis horas para ser preparado, além de muito joelho no chão!

Você também deve se lembrar daquela caso complicado de disciplina na igreja, não é? O irmão que foi pego em adultério e você, como todo o resto da igreja, escolheu jogar pedras e andar à distância do pecador, não é? Então, meu camarada! O pastor caminhou com aquele irmão, lutou pela reconciliação dele, por sua restauração como crente, gastou horas de Palavra, oração e prantos com ele...

Outra coisa interessante: Com quê você trabalha? Advogado? Pedreiro? Padeiro? Engenheiro? Uma perguntinha para você: "Quando te contrataram eles exigiram algo da sua esposa e dos filhos?" Não?! Que pena... Da minha família eles exigem. Exigem que minha mulher assuma um dos departamentos da igreja, não falte a uma programação sequer, se vista diferente das demais ovelhas, não use maquiagem. Meu filho tem que ser um mini-pastor, um protótipo do pai... e se esquecem que ele é uma criança como as outras.

Uma última coisinha: Você, normalmente, pode contar às pessoas sobre seu trabalho, não é! Tirar uma onda e tal... O pastor não. Tem coisas pesadas, sigilosas, que exigem silêncio em relação à moral, conduta, sentimentos e relacionamentos de outras pessoas. O pastor carrega fardos em silêncio. Ele tem pouca gente para compartilhar coisas que você sequer imagina.

Eu poderia continuar listando muitas coisas aqui, leitor amado. Mas paro por aqui, pois este pequeno texto é apenas um exemplar do que fazemos. E quero trazer algumas reflexões breves para encerrar:

1) Ame o pastor que Deus lhe deu. Cuide deste homem e de sua família, pois ele perde noites de sono e lida com questões que você não imagina.

2) Se nas linhas acima você não enxergou o seu pastor, pelo fato de que ele só sabe se vangloriar e pedir dinheiro... Acho que está na hora de repensar algumas coisas na sua vida como crente! Enfim: IDENTIFIQUE SE VOCÊ TEM UM PASTOR DE OVELHAS OU UM LOBO VORAZ SOBRE SUA VIDA ESPIRITUAL!

3) Nunca, mas nunca mais ligue para a casa de seu pastor ao meio-dia e pergunte: "Te acordei, pastor?". O fato de minha rotina de trabalho ser diferente da sua não significa que durmo o dia todo, ok?

4) Enfim, jamais abra sua boca para falar do que você não conhece. Você trabalha 8 horas por dia, 5 dias por semana. O pastor está 24h por dia, 7 dias por semana à disposição. Portanto, não seja cruel, lembre-se que ele é humano, tem sentimentos, necessidades, dores e passa por coisas que mantém ocultas, pois existem situações que um pastor e um conselho lidam e resolvem em silêncio que se fossem externadas à igreja poderiam enfraquecer a fé de muitos. 

Tá dito o que eu tinha para dizer. Tá dado o recado.
Espero ter sido claro!

Beijo a todos!

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PS: O texto não é com o propósito de comparar o envolvimento do pastor com a igreja e o envolvimento do membro. Muito menos de mostrar que o pastor é mais dedicado e sugado por seu "emprego" do que os demais irmãos, ou ainda, em momento algum se trata de auto-comiseração ou de evidenciar que as famílias pastorais carregam fardos maiores que os demais. Enfim, não é um mero comparativo, mas as comparações são formas mais didáticas de trazer à tona algumas das práticas pastorais que poucos conhecem. Portanto, não leia o texto tendo em mente que estou o humilhando, denegrindo, desvalorizando ou coisa parecida. Apenas entenda que a linguagem dura, o sarcasmo e a força das expressões são formas mais consistentes de comunicar o que tenho a dizer, ok?

O PS, é motivado e encorajado pelo comentário do Marcus Lemos, rsrs

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7 comentários

  1. Gostei do texto, e de fato já convivi com pastores que se enquadram perfeitamente nestas citações, todavia tive experiências terríveis com pastores presbiterianos que de longe é a metade da metade do que foi dito, e pode ser que o e-mail faz referência a tais pastores. Fato é que respeito é bom e todo mundo gosta, seja pastor, presbítero, pedreiro, médico, faxineira... E é claro que muitos não têm noção das funções/práticas de pastores, presbíteros, diáconos, membros, mas ser ponderado em certos momentos é questão de sensatez.
    Abraços.
    Att. Betânia.

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  2. Só lembrando que o texto tem o caráter de esclarecer o que o PASTOR DE VERDADE faz... Não está desmerecendo o que os demais profissionais fazem. Apenas evidenciando o que o pastor faz sem alarde.

    A motivação do texto não era de mostrar os lados da moeda, mas evidenciar o lado desconhecido e muitas vezes injustiçado.

    Como diz o título é um DESABAFO e não um comparativo!

    Abs

    Maicon.

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  3. Maicon, o texto é um bom tapa de luva a muita gente, e por diversas vezes já me encontrei em situações dizendo coisas parecidas ao seu texto, em defesa dos pastores. Há poucos dias eu falava exatamente isso com gente da minha família que não é crente.

    POR OUTRO lado, ouço esses argumentos com uma boa frequência e, com um pouco de convivência (quase oito anos) e conhecimento de causa que vc sabe que eu tenho, acredito que alguns seminaristas e pastores são os seres mais autocomiseráveis da face da Terra. Acho complicado escrever algo que gera uma comparação com outras profissões, por dois motivos: primeiro é que não se fala com conhecimento de causa do que o outros passam. Sabe muito bem que muitos se fecham ao seu mundo e conhecem o mundo "fora" da igreja e seminário somente por meio do "ouvi falar". Por diversas vezes soam como se o ofício de pastor é o mais pesado do mundo. Não estou dizendo que não é. Nem digo que é.

    Segundo: por mais pesado que seja o fardo do pastor, há de se convir que há inúmeros, repito, inúmeros, benefícios, tanto contratuais com a igreja, tanto com os membros da igreja em que pastoreia. Exemplo contratual: moradia, gasolina, educação para os filhos. Não contratuais (geralmente presentes): presentes, ofertas, viagens, almoços, reconhecimento, bajulações. Ou, então... quando o carro está no oficina, um irmão empresta o seu carro, com tanque cheio. O "não pastor" provavelmente ficará a pé ou de ônibus por uns dias.

    Portanto, eu sou a favor, sim, que o pastor tenha uma boa remuneração. Mas sou contra um pastor provocar com esse tipo de texto, pois, acredito que, tendo a vocação, não é algo que se deve preocupar em escrever e defender perante outros. Digo isso porque acredito que, provavelmente, não reconheceu que os membros também possuem filhos que morrem e sofrem tanto quanto o pastor. Filhos e esposas de membros também sofrem quando o marido muda de profissão ou cidade por causa dela,ou, ainda, quando falta alimento em casa, combustível ou moradia e não poder contar com um apoio; ou a esposa, por exemplo, ter que abrir mão da sua carreira profissional para poder mudar de cidade para acompanhar o marido. Membros também recebem ligações de amigos em sofrimento e também acordam de madrugada para aconselhar um amigo (sem marcar na agenda para recebê-lo em seu gabinete). Membros também participam voluntariamente de ministérios e abrem mão da família pela igreja. Membros geralmente fazem isso por amor a Deus, à igreja e à liderança, ou seja, pelo seu pastor. Pastores são membros "em tempo integral" da igreja.

    Desabafei da minha parte. E iria longe.
    #mamilospolemicos

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  4. Hahaha...

    perfeito, Marcus! Te amo por você ser sempre tão autêntico e valioso em tudo o que fala. Você me conhece e sabe que esta coisa de auto-comiseração não é comigo.

    Porém, conforme expliquei no comentário que respondi à Betânia, o post não é de caráter comparativo - apesar de ser inevitável fazer isso em alguns argumentos - mas descritivo.

    A intenção do texto é gerar reações não em gente comprometida com a causa e com o evangelho como você e boa parte dos crentes que conheço, mas em pessoas que tratam o pastor como um "à toa" que come e dorme o dia inteiro e vai até à igreja umas três vezes na semana pra ganhar uma boa grana.

    Conhecendo você, sei que entende este ponto de vista, assim como entendo o seu. Em 66 posts neste blog este é apenas o segundo falando da vida de pastor. Sempre procuro escrever sobre a vida nossa de cada dia como crentes comuns, mas este texto, propositalmente, no teor que foi escrito não é para elevar as dificuldades na vida de um pastor ou diminuir as da vida de um crente comum, mas para mostrar, aos desavisados, que a vida do pastor não é o mar de rosas e facilidades que ALGUNS afirmam.

    Abração, meu brother!

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  5. Valeu, Maicon. Temi a sua resposta, mas foi light rs.

    A questão é que, como afirmou, invariavelmente se gera uma comparação, sim. Principalmente por soar irônico com o tom das palavras que escolheu.

    Agora, o conheço acredito que relativamente bem e, afirmo: quem dera que ao menos 1/3 da igreja tivesse pastores como vc já é e será muito mais à medida que a experiência subir as suas costas. Porém, infelizmente, conheço inúmeros casos de pastores que realmente só querem pregar aos domgingos e "não me incomode de segunda a sábado".

    Eu tenho a plena convicção (e já usei os mesmos termos que vc usou) que pastor trabalha 24x7. Mas apenas tenha cuidado a exaltar as dificuldades de um pastor perantes os não pastores, porque isso diminui o fardo dos outros e menospreza as suas dificuldades. Deixe que o seu trabalho mostre o seu esforço por si mesmo, pelas suas ações e resultados. Pelos quase quatro anos que convivo contigo, suas palavras não acrescentaram em nada àquilo que já tenho plena convicção de capacidade de ser pastor. Não pelas palavras - que podem sempre ser contestadas. E, aproveitando o momento de desabafos, do fundo do meu coração, em segredo, o tenho como um dos futuros grandes líderes da nossa igreja, tal qual falam tão bem do Driscoll, Piper, Stott, Augustos, Hernandes, etc, etc. De coração.

    Para desfazer de um possível mal entendido público, vc não se enquadra nos autocomiseráveis rs. Mas provavelmente vc os reconhece, e não são poucos.

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  6. hahaha...

    Minuto de silêncio...

    #Morri

    Valeu, Markin!

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  7. Tentei, mas não resisti à tentação de dar pitaco.
    Talvez para mim seja fácil aplaudir o texto do Maicon: excluindo-se a admiração e respeito que tenho por ele, não tive as experiências ruins citadas pela Betânia, conheço poucos pastores e sou pastoreada por dois homens admiráveis (cada um à sua maneira).

    Nunca me preocupei muito com o salário dos pastores, talvez por ter convivido de perto apenas com homens que se adequam às citações do corpo do texto; talvez por ser desligada ou um tanto alienada acerca de algumas coisas.
    Óbvio que existem os exploradores da fé alheia, mas esses, como costumo dizer aos meus amigos não crentes, eu sequer considero cristãos e menos ainda pastores. Tratam-se de vigaristas de quem sei que o Deus da igreja cobrará pelos atos vis.

    Maicon, não vejo o texto como uma provocação, mas entendo o que o Marcus falou lá em cima e, de fato, é um risco que as pessoas assim o interpretem em virtude das suas próprias feridas passadas. Mesmo assim, acho válido chamar a atenção para as características do verdadeiro trabalho pastoral, inclusive, para abrir os olhos de algum desavisado que porventura seja liderado por um lobo em pele de ovelha.

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