Evangelho Jesus

Você Não Foi Mutilado

18:55Maicon Custódio





Abaixo, um trechinho do último capítulo de minha monografia


Uma das pressuposições mais importantes dentro da cosmovisão cristã é aquela que afirma que Jesus está assentado à destra de Deus e por isso já reina sobre todas as coisas. Ele é soberano Rei e Senhor. Ele é o kyrios sobre toda a criação, inclusive as pessoas. Este reino cósmico de Cristo influi sobre todas as áreas da vida humana. Uma clássica afirmativa de Abraham Kuyper marca esta percepção: "Na extensão total da vida humana não há nenhum centímetro quadrado acerca do qual Cristo, que é o único soberano, não declare: Isto é meu![1]”.
A visão de mundo cristã é diferenciada pelo fato de que ela parte de absolutos. Ela parte de um governo externo onde o homem não é seu próprio senhor, mas Deus é. Esta visão é especial, pois a partir disso o homem não faz algo por fazer, mas faz como se estivesse fazendo para Deus.
O Senhor usa das vocações humanas para reger tudo o que acontece. Isto Ele faz, usando da sua divina providência, quando nos cura através de um médico e não pelo milagre, ou quando se comunica conosco pela pregação ao invés de falar diretamente com cada um de nós. Veith[2] mostra a nossa relutância em aceitar que Deus age mais comumente no “banal” do que no sobrenatural. Achar que Deus age apenas no sobrenatural pode ser perigoso, pois isso faz com que o homem veja "a rotina" e viva como se o mundo funcionasse por si mesmo, o que é uma grande tolice. 
Deus, através de seu poder e vocação dos homens conduz todas as coisas para um fim que lhe apraz. A natureza espiritualista do homem - Calvino defendia um senso inato do divino - pode fazer com que ele despreze o imanente, porém, precisa ficar claro que Deus age através da família, do trabalho ou da sociedade para cumprir o decreto da sua providência, ou seja, Deus usa vocações humanas para cumprir seu decreto.
Esta visão clara sobre as vocações no plano de Deus é extremamente válida. O homem faz as coisas a partir de então, sabendo que as faz como se para o próprio Deus.  Michael Horton demonsta que o crente precisa se envolver com coisas ditas seculares, pois é o chamado de Deus para a vida de cada um: 
“Alguns cristãos têm dificuldade para entender a sua relação com o mundo porque percebem a terra como um reino governado por Satanás; portanto, parece que é melhor concentrar-se no evangelismo e no crescimento espiritual particular do que se envolver com a atividade secular[3].” 
É importante observar que Horton avisa sobre o grande problema de colocar o mundo como governado pelo Diabo. De fato, o pecado faz a sociedade servir ao Inimigo de nossas almas, mas é Cristo quem está acima de todas as coisas - inclusive do Diabo - com todo o seu poder e glória.
O pacto com Deus, que restaura a existência humana, começa então a influenciar nas mínimas coisas da vida deste homem. Ele passa a ter aplicação de tudo o que crê na sua vida de forma evidente. Um homem que crê que Deus criou todas as coisas vai preservar a natureza com base no mandato de regência que tem sobre a Criação e não meramente por um sentimento de auto-preservação ou pelo mero conceito panteísta ou animista de que a divindade é a natureza e deve ser, por causa disso apenas, preservada. Um homem que é empregado entende que Deus é Senhor sobre o seu chefe e por isso segue o exemplo e a recomendação bíblica de que trabalhe como se estivesse trabalhando para o próprio Deus, ou seja, o cristão vai ser um funcionário excelente porque ele crê que Deus deseja assim. O artista que entende que o conceito mais amplo de belo que ele pode ter é aquilo que o próprio Deus revelou, seja na obra da criação, seja na Escritura, vai produzir a sua arte em consonância com aquilo que crê que é o mais belo, ou seja, o que Deus deu.
Isto de aplica também ao nosso descanso, ao lazer, à diversão, aos esportes, aos nossos gostos e preferências. Pensar que Deus nos criou dualizados não é correto. Ele não nos fez para viver uma vida mutilada na qual o espiritual é o que se faz na igreja ou o que é tido como culto e todo o resto é mundano ou secular. Lazer, arte, trabalho, política e ecologia são bênçãos de Deus também e o cristão tem obrigação de agir em todas estas áreas, pois é agradável aos olhos do Pai.
Enfim, a nova visão, com base na revelação bíblica de Deus tira o conceito de realidade fragmentada da vida do homem. Não existe a mera dualidade de sagrado e profano com base no que se faz em um ambiente religioso e no que se faz fora do ambiente religioso. A realidade fragmentada é execrada da vida do homem quando entende o senhorio de Cristo e como isso influi de forma prática em sua própria vida. Francis Schaeffer faz uma pesada crítica a esta realidade quando diz:
O cristianismo e a espiritualidade foram fechados dentro de uma pequena e isolada parte da vida. A realidade total foi ignorada pelo pensamento pietista. Permitam-me dizer rapidamente que num certo sentido os cristãos devem ser pietistas: no aspecto em que o cristianismo não é apenas um conjunto de doutrinas, mesmo que de doutrinas certas. Toda doutrina de alguma forma tem que ter efeito sobre as nossas vidas. Mas o lado fraco do pietismo, isto é, seu modo platônico de enfocar as coisas, tem sido uma tragédia não só sobre as vidas, individualmente, como também na totalidade de nossa cultura[4].
E continua:
Quando digo que o Cristianismo é verdadeiro, digo que é verdade em relação à realidade total – a totalidade que existe, a começar com a realidade central, a existência objetiva do Deus infinito e pessoal. O cristianismo não é apenas uma série de verdades mas é a Verdade – a Verdade sobre a realidade. A apreensão intelectual dessa verdade – e, a seguir, o viver baseado nesta verdade, a verdade daquilo que é – produz não apenas algum tipo de resultado pessoal, mas também produz conseqüências na lei e no governo[5].


Portanto, fica muito claro que se o "Cristianismo" de um indivíduo não passa de uma regra de como cultuar, é bem provável que ele esteja equivocado quanto à sua espiritualidade. A visão transformadora acerca da Bíblia, de Cristo e seu senhorio e a realidade perene da redenção deve fazer com que o homem frutifique em todas as áreas de sua vida indistintamente, seja no âmbito social, cultural, profissional, familiar ou eclesiástico, pois Cristo restaurou o homem inteiro, corpo e alma, e não apenas parte dele.



[1] http://www.josemarbessa.com/2010/02/abraham-kuyper-minha-gloria-nao-darei.html [acessado em 22/10/2011].
[2] VEITH JR, Gene Edward. Deus em Ação. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
[3] HORTON. Michael S. O Cristão e a Cultura. São Paulo: SP: Cultura Cristã, 2006. [pág. 13].
[4] SCHAEFFER, Francis. Manifesto Cristão. São Paulo-SP: Refúgio, 1981. [pag. 23].
[5] Ibid, 24.

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1 comentários

  1. Muito bacana irmão! Acabei de chegar no serviço e achei seu web site ali no face.Daí resolvi dar uma passada e me deparei com essa bela pregação.
    Ainda vou lê-la com mais atenção, mas de imediato queria pedir que continue com esse seu trabalho, pois é de grande importância pra sociedade que ela saiba seguir estes caminhos! Grande abraço de seu amigo,

    João Paulo Ribeiro Pontes

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