Marx Estava Certo

19:12Maicon Custódio




Alguns dados dos últimos anos apontam para os números da religiosidade no Brasil. Cerca de 97% dos brasileiros afirmam crer na existência de Deus. Destes, 87% afirmam ser ligados a alguma religião cristã, segundo o Censo 2010. Colocando em números mais detalhados vamos chegar a um número de evangélicos que gira em torno dos 22,2%. Enfim, o Brasil é um país religioso, a maioria esmagadora dos habitantes pertencem a alguma igreja cristã e aproximadamente 1/4 dos brasileiros é de linha evangélica. Ponto.
Tais números poderiam ser animadores se o que víssemos na realidade fosse algo que confirmasse estes números na prática. A conclusão que se chega é de que a religiosidade, em se tratando de Brasil pelo menos, não tem nada a ver com a sociedade, o caráter, a honestidade e coisas mais. Nunca fomos tão religiosos, mas também nunca tão corruptos, violentos, inadimplentes, agressores do meio-ambiente, imorais, materialistas e muitas outras coisas que poderiam facilmente compor esta lista.
Com isso temos duas constatações lógicas às quais podemos chegar:
1. Os ateus e agnósticos estão certos. Ou seja, a religião[1] é algo ruim. Deus não existe e se existe não faz diferença nenhuma para o que somos, pensamos, sentimos ou fazemos. Uma ilusão das mentes menos esclarecidas que apenas serve para nos conduzir para uma fuga de um mundo que é fatalista, opaco e sem propósito.
2. A forma com que entendemos e praticamos religião, ou espiritualidade se preferir, é errada, pois um povo que realmente se pauta em Deus não aceitaria o que está acontecendo e muito menos, faria o que tem feito.

Confesso que prefiro a segunda conclusão. O problema não é Deus. O problema não é a religião. O problema é a forma como se tem conduzido a espiritualidade. A sociedade chegou onde chegou e a igreja[2] é culpada. A igreja é culpada por se fechar em sua agenda e manter-se irrelevante para a sociedade que a cerca. A igreja é culpada por se ocupar apenas com cultos e evangelismos enquanto as pessoas têm outras necessidades. A igreja é culpada quando sataniza tudo que não tem o rótulo Gospel, a igreja é culpada quando se esquece de seu caráter redentor dentro da sociedade em que está inserida.
Porém, se deixarmos o generalismo de lado e conversarmos sobre o indivíduo em particular podemos entender mais facilmente o problema da igreja. O problema da igreja são as pessoas. Sim, cara pálida, o problema é você... o problema sou eu, muitas vezes. É que a nossa espiritualidade é fosca, é doente, é inanimada. Ela se resume a àquela ginástica do sentar e levantar, do erguer os braços, bater palmas e cumprimentar a pessoa do lado, mas ela tem pouco relevância existencial. Deus não está no decorrer de nossa semana. Deus não faz parte de nossos relacionamentos conjugais e afetivos, ele está presente de forma muita rasa na criação dos nossos filhos, não vai comigo para o meu trabalho ou para as minhas rodas de amigos. Deus nunca foi comigo até a urna onde confio quatro anos de poder a legislativos e executivos municipais, estaduais e federais. Deus não está no futebol do fim de semana, muito menos no churrascão.
Criamos uma espiritualidade dualizada que culminou nos resultados que vemos, ou seja, a “fé” se tornou irrelevante para a vida, pois a fé deixou de ser parte da vida pra se tornar algo meramente metafísico. A fé é o salto, é o abrir os braços no vazio e vivenciar a experiência que não se tem no dia a dia, pois Deus nunca está lá. E nessa perspectiva, acabei por ter que me render e dizer a Karl Marx: “Tu estás certo!”. A religião é ópio do povo. Vivemos sem Deus a semana inteira, por isso o mundo não é transformado pelo que afirmamos crer. Mas a cada domingo, adentramos na áurea santificada do santuário do Altíssimo e lhe clamamos por doses cavalares do seu entorpecente santo! Nos lançamos na experiência do intangível e vivenciamos a fé que nos transporta para o lugar onde a fumaça nos esconde... Entorpecidos, voltamos para a velha vida opaca, sem brilho, sem luz... sem Deus!
A assim a vida continua, nossos números crescem, mas o mundo continua o mesmo, porque o Deus que criamos à nossa imagem e semelhança fica preso em sua caixinha de tijolos e placas denominacionais, enquanto saímos para viver a nossa vida real e cruel, onde ele não tem espaço, pois não há vida gospel, nem sexo gospel, nem política gospel... ou qualquer outra gospel, afinal, o gospel é o único lugar onde Deus cabe...

Pense, reflita, faça algo, mude!
Abração,

Pr. Maicon.


[1] Entenda religião no seu sentido amplo e original religare, ou seja, o ato de se religar a Deus. Enfim, religião neste texto não está sendo empregada como adesão denominacional, mas como pressuposição da existência de um Deus e relacionamento com tal divindade.
[2] Pessoas que se reúnem confessando o cristianismo como sua religião independente de denominação.

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7 comentários

  1. A segunda conclusão machuca os "crentes"

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  2. É Kaline, voltei sim, rsrs...

    Marcelão, a constatação me machuca também. Ou a gente se torna relevante ou deixa logo os islâmicos tomarem conta de tudo!

    Abração

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  3. Parabéns pelo blog amigão. Tá ótimo.

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  4. Aqui em Rio Branco é bem fácil perceber tudo isso.

    Estamos na unica capital onde o número de evangélicos é igual ao número de católicos. Isso em 2010. Hoje já ultrapassou.

    Acontece que os números da violência continuam aumentando. Violencia doméstica, assaltos, furtos, etc. Eu sou Policial Civil, e vejo isso todo dia.

    Só para ter uma idéia, apenas no ultimo mês, participei diretamente da prisão (seja flagrante, seja mediante mandados de prisão oriundos de investigações) de 29 pessoas. Os crimes são de tráfico e corrupção ativa. Destes 29, 21 eram evangélicas, dentre os quais a metade eram líderes em suas denominações, e não estamos falando da universal heim, mas de assembleia de Deus, batista, metodista...

    Eis o crescimento, eis o avivamento de nossa geração... avivados para o pecado, compromissados com as igrejas mas sem identificação alguma com Cristo.

    OUtro dado deste censo 2010 é que os católicos continuam com renda mensal superior à dos evangélicos, ou sejam, os 'idólatras' são mais prosperos que os 'santos evangélicos'.. onde fica a teologia da prosperidade nesse quadro?

    Para confirmar isso basta acessar o site do ibge, e buscar o link do censo.. tá lá.

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  5. OI pastor Deus abençoe sua vida e sua família.Achei forte seu texto mas compartilha uma parte no face, mas é isso mesmo que acontece com a maioria infelizmente,que o SENHOR tenha misericórdia de nós e nos livre uma vida espiritual infrutífera e da condenação do inferno.Amém. Áurea Benjamin.Fica na PAZ DE CRISTO.

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  6. Olá Maicon, gostei muito do texto. Essa percepção abordada por você é captada por todos nós em diferentes pontos de nosso Brasilzão. Como nosso irmão Ruy Cavalcante que apresenta dados assustadores de suas atuações como agente da lei. "Crentes" presos por falcatruas. São os números do censo revelando as caras por trás deles. Parabéns pela reflexão...
    Saudades...

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Na paz do Eterno.

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