Cosmovisão Filosofia

Definindo Cosmovisões

15:14Maicon Custódio




Cosmovisão é uma daquelas palavras da moda. Na teologia, filosofia e sociologia, principalmente, ela vem sendo utilizada com rara frequência. Tudo que escrevo neste blog tem a ver com a minha cosmovisão, que é cristã. Nas próximas postagens falarei um pouco mais especificamente sobre o que é Cosmovisão Cristã, definirei termos e deixarei algumas coisas claras, porém, hoje falarei um pouco sobre algumas outras cosmovisões em caráter introdutório. 
Para que haja uma explicação mais clara acerca da cosmovisão cristã é necessário que se discorra sobre as demais cosmovisões. Pelo menos aquelas de maior expressão na sociedade atual. Tomando por base a lista dada por James Sire em seu livro "O Universo ao Lado", nota-se que as principais cosmovisões em voga na atualidade são: deísmo, naturalismo,  existencialismo, o pós-modernismo (que é o ápice do caos) e o teísmo cristão. Com exposições sintéticas de cada um deles, a tarefa de compreender o ambiente em que o cristão está inserido, para que assim possa transformá-lo, torna-se menos árdua. Portanto, as definições básicas de cada uma destas cosmovisões explico a seguir. Vejamos:
Deísmo é a cosmovisão que afirma que Deus criou o Universo e o abandou. Nas palavras de Mark Driscoll “ele é o pai que o abandonou recém-nascido, nunca mais apareceu, não ligou, nunca mandou um e-mail, um SMS ou um cartão de Natal. Você está sozinho e no fim das contas pode ser que Ele esteja te esperando, ou não[1]”. O deísmo, segundo Sire, pode ser assim descrito:
Um Deus transcendente, como primeira causa, criou o Universo, mas então o deixou funcionar por conta própria. Deus é, portanto, não imanente, não totalmente pessoal, não soberano sobre os assuntos humanos e não providencial. (...) O cosmo criado por Deus é determinado, pois foi criado como uma uniformidade de causa e efeito em um sistema fechado; nenhum milagre é possível. (...) Os seres humanos, embora pessoais, fazem parte do mecanismo do Universo. (...) o cosmo, este mundo, é compreendido com estando em seu estado normal; ele não é decaído ou anormal. Podemos conhecer o Universo e por meio de seu estudo determinar como Deus é. (...) A ética é restrita à revelação geral; pelo fato de o Universo ser normal, ele revela o que é certo. (...) A história é linear, pois o curso do cosmo foi determinado na criação[2].
Portanto, na visão deísta de mundo, Deus nada mais é do que uma força qualquer, não necessariamente pessoal, que deu o start no Universo e o abandonou. Os seres humanos são reféns das leis naturais e do seu próprio livre-arbítrio e isso culmina no desespero de notar que no fim das contas você estará sempre por conta própria.
Naturalismo é a cosmovisão que afirma que a matéria é tudo que há. Ela é eterna. Deus não existe. O cosmo é também um sistema fechado e os seres humanos são como máquinas complexas. Nisso, a morte é apenas uma extinção da personalidade e a ética é algo que tem a ver apenas com os seres humanos, pois não há qualquer lei implantada pelo cosmo, pela matéria ou algo mais que seja transcendente. Uma excelente contribuição para a compreensão desta cosmovisão está em “O Mundo de Sofia” de Jostein Gaarder. Em seu romance sobre a filosofia ele relata uma das explicações que é dada à menina que descreve o que é o naturalismo:
Por “naturalismo” entendemos uma concepção da realidade que não aceita nenhuma outra realidade além da natureza e do mundo sensível. Um naturalista, conseqüentemente, vê também o homem como uma parte da natureza. Primeiro que tudo, um investigador naturalista parte apenas dos fatos dados pela natureza — logo, não parte nem de especulações racionalistas nem de qualquer forma de revelação divina[3].
Enfim, o naturalismo vai defender com todas as suas forças que o que se pode afirmar é apenas aquilo que possa ser constatado com base no que a natureza disponibiliza. Não há realidade fora dela, pois ela é suficiente em si mesma.
Existencialismo provavelmente é a cosmovisão mais corrente nos dias atuais, principalmente presente nos púlpitos e literatura de alguns movimentos denominados evangélicos. Segundo Herman Dooyeweerd a afirmativa de um existencialista, voltado para o seu ego como é, seria: “Eu não sou mais o que fui ontem. Meu futuro ainda está em minhas mãos. Eu posso me modificar. Eu posso criar o meu futuro com meu próprio poder[4]”.  Ou seja, o ego é o fator determinante da vida. Não o intelecto. Não algo externo, mas o ego. O lema do existencialismo é que a "existência precede a essência"; isso implica, na prática, da seguinte forma: o ser humano desfruta da sua liberdade de existir, ele é totalmente livre; e a partir das suas escolhas o seu ser, a sua essência vai sendo formada.
Em síntese, o existencialismo consiste numa cosmovisão que preza pelo livre-arbítrio a qualquer custo. O homem precisa encontrar algo com o que se sinta realizado para que assim forme a sua essência. O ser humano é o único ser vivo com consciência de sua existência, portanto, precisa viver em busca de sua essência, sua natureza. O indivíduo é como o ator que sobe ao palco sem um roteiro; está livre para improvisar. Eu sou o que eu faço, eu sou o que como, logo, sou o que sou se faço o que faço. Não sou corajoso a não ser que aja como corajoso, ou covarde se não ajo como covarde. Enfim, as lutas do dia a dia, e as escolhas é que fazem o indivíduo ser, caso contrário ele apenas existiria.
Pós-modernismo é a cosmovisão mais presente nos dias atuais no que diz respeito à  sociedade de um modo geral. Não há possibilidade de fugir disso. Vivemos numa sociedade pós-moderna. O pós-modernismo caracteriza-se pela ausência de verdades absolutas, pela hibridez, relativismo e anti-ideologismo, afinal, os indivíduos são ilhas. Cada um é uma realidade particular. Identidade é sinônimo de individualidade.
Poucos estudiosos no mundo são tão gabaritados para falar acerca de pós-modernidade quanto o sociólogo polonês Zygmunt Bauman[5], um profícuo escritor sobre o assunto. Em uma recente entrevista (agosto de 2011) Bauman faz uma afirmação que chama a atenção para o que é o pós-moderno:
As sociedades foram individualizadas. Ao invés de pensarmos acerca de qual nação, comunidade ou movimento político se pertence, tendemos a redefinir o significado, o propósito e a felicidade da vida para o que acontece com a pessoa em particular. É a questão da identidade que tem um papel muito importante no mundo de hoje. Você precisa criar a sua própria identidade, pois você não a herda de ninguém. E não se trata apenas de você fazer isso a partir do zero, mas de ter que passar a sua vida inteira redefinindo sua identidade[6].
A realidade da sociedade pós-moderna é a da falta de cosmovisão. O naturalista tem a sua verdade, assim como o deísta e o teísta. Nenhum deles tem mais credibilidade do que o outro, todos são válidos, afinal, não existem verdades coletivas, mas individuais. A verdade do indivíduo A é válida porque o indivíduo A crê assim; em contrapartida a verdade do indivíduo B é verdade porque ele também acredita desta forma. A pós-modernidade expulsou de seus domínios os princípios da contradição e excludência, apenas há a história, as decisões, os desejos, as crenças e as escolhas de cada um. Se o que um individuo crê é excludente em relação ao que o outro crê a única coisa que eles podem fazer é se respeitar mutuamente. Querer impor pressupostos universais e absolutos é nadar contra a corrente da sociedade contemporânea. Esta atitude não condiz com a época atual.
Por fim, o teísmo cristão é a cosmovisão que esta série visa evidenciar, defender e expor como o único caminho para transformação real da sociedade. A partir do próximo texto será apresentada esta cosmovisão, tendo por base a teologia do Pacto de Deus com o homem que conduzirá a uma percepção de história com propósito, baseada no trinômio Criação, Queda e Redenção.

Pr. Maicon


[1] DRISCOLL, Mark. Palestra: Cinco Cosmovisões. [em vídeo].
[2] SIRE, James W. O Universo ao Lado. São Paulo-SP: Hagnos, 2009. [Págs. 60-67].
[3] GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia: Romance da História da Filosofia. São Paulo-SP: Companhia das Letras, 1995. [pág. 432].
[4] DOOYEWEERD, Herman. No Crepúsculo do Pensamento Ocidental. São Paulo-Sp: Hagnos, 2010. [pág. 246].
[5] ZYGMUNT BAUMAN, sociólogo polonês, iniciou sua carreira na Universidade de Varsóvia, onde teve artigos e livros censurados e em 1968 e foi afastado da universidade. Logo em seguida emigrou da Polônia, reconstruindo sua carreira no Canadá, Estados Unidos e Austrália, até chegar à Grã-Bretanha, onde em 1971 se tornou professor titular da Universidade de Leeds, cargo que ocupou por vinte anos. Responsável por uma prodigiosa produção intelectual, recebeu os prêmios Amalfi (em 1989, por sua obra Modernidade e Holocausto) e Adorno (em 1998, pelo conjunto de sua obra). Atualmente é professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia.
[6] BAUMAN, Zigmunt. Fronteiras do Pensamento 2011.
[ http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&list=WL&v=POZcBNo-D4A] acessado em 20/09/2011.

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2 comentários

  1. Cara, para um engenheiro é difícil entrar nesse mundo de Cosmovisões. Mas vc conseguiu esclarecer o assunto para mim com muita maestria.
    Estou bastante curioso para o teísmo cristão.

    Gostaria de ler uma abordagem sua sobre Igreja Reformada Contemporânea. Algo que venha tentando formar um conceito.

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  2. Zaqueu, este texto aqui talvez sirva, pelo menos de caráter introdutório à uma cosmovisão genuinamente cristã reformada:

    http://www.maiconcustodio.com.br/2013/03/cristianismo-e-plenitude.html

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