Esperança Filosofia

A Utopia da Sociedade Perfeita

08:00Maicon Custódio





Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) dizia que o homem é essencialmente bom, mas a sociedade o corrompe. Rousseau é, talvez, o primeiro filósofo a lançar mão da emoção mais que da razão. Ele falava de coração, sentimento, intuição, voz da consciência. Rousseau valorizava a sensibilidade e a “voz pura que podemos ouvir em nosso interior”[1]. O filósofo propunha uma revolução que fizesse renascer dentro de cada um essa pureza original, influenciando costumes e a sociedade como um todo. Ele não propunha um abandono da vida social. Não desafia o homem a “voltar a andar de quatro”, como o acusou Voltaire, mas desafia o homem a voltar à sua natureza original, àquela bondade que o conduziria à uma sociedade engajada, onde cada um é governado e governante, onde o povo tem o poder, ao invés de um monarca. O povo cuidando do povo. Cada um dando o bem que tem.

O que o Rousseau propôs foi levado a sério por alguns. Charles “Chuck” Dederich[2], por exemplo, fundou a Synanon. Começou como um encontro de auto-ajuda para viciados, transformou-se numa colônia com uma estrutura dos sonhos, onde havia saúde, educação, segurança e afins da melhor qualidade possível e desembocou num regime totalitário no qual o próprio Chuck se tornou o fascista. Obrigando filhos a viverem separados da famílias, criando exército particular, rodízio entre casais onde a cada três anos havia troca de cônjuges entre os moradores de Synanon e o mais brutal: obrigatoriedade de aborto para as mulheres e vasectomia para os homens como prova de fidelidade à visão do “Messias Chuck”[3]. Tal qual o conto satírico de George Orwell, A Revolução dos Bichos, o poder subiu a cabeça dos visionários e revolucionários e desembocou numa imposição de vontades pessoais.

Em nossos dias o discurso é o mesmo. Rousseau está vivo... muito vivo. Suas ideias influenciaram “revoluções” no século passado, tratados políticos, fundação de partidos políticos, governos. A ideia do homem bom continua. A cada fim de ano a maior rede de TV aberta do país tenta nos dizer que “nestes novos dias as alegrias serão de todos. É só querer! Todos os nossos sonhos serão verdade!”. No mesmo canal, a cada domingo, na sua “revista esportiva semanal” vemos comoventes matérias do poder redentor do esporte. A sociedade dos nossos dias tem se mostrado ambientalmente engajada. Sustentabilidade é o termo da moda. O ideal? Deixe florescer essa bondade inata que você tem e cuide do planeta para as próximas gerações. Outra palavrinha da moda é voluntariado, afinal, somos todos bonzinhos e precisamos demonstrar caridade.

A utopia da sociedade moderna é a da perfeição. Chegaremos à sociedade perfeita quando liberarmos todo o bem potencial que temos. Quando isso acontecer seremos perfeitos, livres para ser felizes, sem dogmas ou imposições. Simplesmente saciando a nossa fome de paz com os frutos de nosso bem. A sociedade da utopia, onde todos vão liberar essa sua humanidade perfeita que há muito foi perdida, vai chegar a este ponto por causa da educação de qualidade, a democracia vivida em seu sentido mais real, a compreensão da liberdade do outro, o fim das guerras, o fim do capitalismo selvagem, a criminalidade chegando a zero por causa da justiça social que será estabelecida. É... tem gente que pensa assim. Muitos acreditam que esta tal “bondade humana” é a solução de nossos problemas. Para eles, Rousseau estava certo.

Porém, cristão que sou, não consigo acreditar nessas coisas. Não do jeito que se crê por aí. A história da humanidade só me faz crer que estamos mais próximos do caos do que da ordem. Creio nisso porque acredito piamente na doutrina bíblica que é a mais esquecida de todas: A depravação total... o pecado original. Alguém chegou a dizer que se existe uma doutrina bíblica da qual temos constatação empírica suficiente é esta: a natureza pecaminosa. Reinhold Niebhur disse que “as ilusões utópicas e aberrações sentimentais da cultura moderna liberal são realmente todas derivadas do erro básico de negar o fato do pecado original”[4]. Recusamos Deus, perdemos o absoluto de perfeição e bondade e automaticamente só restou um lugar pra se olhar: o espelho.

A resposta cristã à utopia da sociedade perfeita é a mais óbvia de todas. Em se tratando de um cristão, a não ser que o pecado seja reconhecido, Cristo seja elevado ao seu lugar de honra, como Senhor e Rei, Reconciliador e Redentor da humanidade e da criação; o idealismo dos adeptos de Rousseau não passa de utopia ridícula. Risível.

A diferença entre um cristão e um utópico social pode ser exemplificada em poucas palavras. Enquanto os utópicos cantam Jota Quest pensando nas formas com que alcançarão os dias melhores; os cristãos cantam a canção como um hino profético da ansiedade de quem aguarda a vitória. Cristãos podem cantar “Dias Melhores“, olhando para a igreja que é o agente atual do Reino e abrindo aquele leve sorriso de quem sabe que os dias melhores virão... e como virão... Não por causa do resgate da bondade humana, mas por causa do Bom Mestre que resgatou a humanidade.

Nele,

Pr. Maicon

e cantemos a canção...










[1] DROIT, Roger-Pol. Filosofia em Cinco Lições. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012. p. 209-219
[3] Aconselho você a ler o artigo do link acima (em inglês) e o livro de Nancy Pearcey e Charles Colson - E Agora Como Viveremos? - publicado pela CPAD, afim de captar melhor as ideias de Chuck e obter mais detalhes da Synanon.
[4] COLSON, Charles e PEARCEY, Nancy. E Agora, Como Viveremos?. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

Você Poderá Gostar de:

1 comentários

  1. Aquele que caminha6 de julho de 2016 15:33

    Eu acredito que somos todos capazes de praticar as mais explêndidas ações, assim como também as maiores barbaridades. Acredito que somos capazes de dizer as maiores e melhores palavras de conforto a um amigo ou desconhecido, a fim de o ver melhorar de uma depressão. Acredito que somos também capazes de matar alguém em extrema necessidade ou loucura. Acredito nas ações, boas ou más, da humanidade.
    Mas no seu caso, e no de muitos outros, preferem acreditar que a sorte e o azar da humanidade, é responsabilidade de um ser superior, poderoso e invisível. Se ficar às portas da morte num hospital, é graças ao esforço e habilidade dos médicos. Mas não se preocupe, se por acaso morrer, pode sempre agradecer ao seu amigo superior. Afinal de contas, é tudo graças a ele ;)
    Durante muito tempo, também acreditei no Pai Natal, até descobrir o meu próprio pai a colocar as prendas debaixo da árvore.
    Mas coitadas de todas aquelas crianças sem prendas e sem saúde por todo o mundo! Parece que nestes casos, Deus deve ter ido distribuir prendas para outro lado.

    ResponderExcluir

Comente. Debata. Discorde. Elogie. Concorde.
Desfrute deste espaço que é seu, amado leitor.
Apenas me conservarei no direito de não responder ANÔNIMOS e conseqüentemente deletar seus comentários.

Na paz do Eterno.

Pr. Maicon

Instagram

Siga!

Formulário de contato