Biblia Deus

Uma Igreja Pragmática

18:05Maicon Custódio


O pragmatismo é uma escola filosófica, uma cosmovisão, eu diria, que preza por aquilo que se mostra prático. A ideia central poderia ser exemplificada na seguinte frase: "Se funciona é verdadeiro, é válido, é moral". Claro que o escopo deste pensamento vai muito além, mas esta provavelmente é uma maneira didática e sintetizada de expressar o que define o pragmatismo.

O título deste post é sugestivo à atual - apesar de não ser nova - situação da igreja evangélica brasileira. Nos tornamos extremamente pragmáticos. Poderia, por exemplo, gastar um bom tempo falando destas manifestações num contexto amplo e, principalmente, usando os exemplos do neopentecostalismo, mas prefiro ser autocrítico aqui e mirar aquele grupo denominado histórico e, por vezes, conservador dentro do próprio evangelicalismo tupiniquim.


Pragmatismo começa "de cima"

Comecemos por nós, pastores, que muitas vezes preferimos a comodidade de sermões rasos e cheios de experiências pessoais, nos fiando no argumento de que "a simplicidade do dia-a-dia fala às pessoas", em detrimento do ensino bíblico e doutrinário profundo e didático que almeja o crescimento qualitativo e quantitativo da igreja. O pragmático diz: "doutrina é pesada e não comunica nada à vida prática da pessoa". Ora bolas, se você levar seu livro de Teologia Sistemática de 900 páginas para o púlpito é bem provável que você seja enfadonho e chato como um show de 3 horas do Renato Aragão. A tarefa de tornar os temas profundos da Escritura palpáveis e aplicáveis à vida do crente é do pastor e isso não será feito sem suor, estudos, dedicação e oração. O pragmatismo nesta área do ministério pastoral tem deixado a igreja doente e cada vez mais superficial em relação ao que crê. Recomendo a estes pastores que lembrem-se sempre das palavras do apóstolo Pedro:

 Antes, santificai a Cristo como Senhor em vosso coração, estando sendo preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós. (1Pedro 3.15)
 Munir a igreja desta preparação é tarefa do pastor. Obviamente o crente deve ler a Palavra e estudá-la com muito afinco, mas quem ficou 4 anos no seminário e tem uma biblioteca bíblico-teológica na sala de casa somos nós. Além do mais, os requisistos ministeriais que Paulo repassa a Tito e Timóteo incluem o ensino e o tem em altíssima estima. Escolha o que quer, uma igreja viciada em oba-oba e bebendo leite espiritual ou uma comunidade de gente treinada para dar razão de sua esperança.


Pragmatismo Musical

Quantas músicas de composição própria o ministério de louvor da sua igreja canta atualmente?
Lembro claramente do dia em que começaram a chegar umas correspondências em nossas igrejas que queriam regulamentar e cobrar pela utilização das músicas dos "artistas gospel" que fossem executadas em nossos cultos. Foi um alvoroço! Uma das coisas que eu mais ouvi foi: "Vamos começar a compor nossas próprias canções!". Claro que depois a situação se mostrou mais um mal entendido do que o que realmente parecia ser, mas essa reação foi marcante para mim.

O pragmatismo está presente em nossos ministérios de louvor em diversos aspectos, mas quero listar três deles mais especificamente aqui:

1. Só cantamos músicas de terceiros e, na maioria das vezes, porque são as modinhas do momento. Não nos perguntamos se elas são bíblicas, se elas são mesmo de louvor a Deus ou ao homem, ou se ela é uma canção bem feita no aspecto técnico.

2. Com aquela conversinha mole do "é pra Deus e o que vale é o coração", os ministérios se viciaram no improviso mal feito e prezam pouco pelo ensaio e preparação diligente das canções que conduzirão o povo à adoração. Sem falar na constatada inabilidade de muitos dos que preenchem nossos grupos musicais porque não temos a devida coragem e postura de dizer: "Essa não é a sua praia" ou "Você ainda precisa treinar um pouco mais antes de fazer parte do grupo".

3. O mais grave de tudo é que boa parte dos "ministros" tem uma espiritualidade deplorável e se tornaram em estrelinhas que só se interessam por aquilo que eles fazem no culto. Quanto ao restante das coisas que acontecem durante a reunião eles estão pouco se lixando. Normalmente são razos de conhecimento bíblico e vida devocional e são mestres em falar abobrinhas quando cismam em fazer seus sermonetes entre as canções.


Por quê então nós não tentamos melhorar a situação? Porque funciona, ora bolas. Nossa visão é tão pragmática que vamos concordando e empurrando com a barriga todas estas situações porque somos mais preocupados com os resultados do que com a essência. Isso é perigoso!


Pragmatismo Hermenêutico

Não sei se este é o melhor título para este tópico, mas creio que ele é honesto. Se trata daquela mania que as pessoas tem de colocar suas próprias experiências acima do que a Bíblia diz e estabelecer suas verdades a partir disso.

Uma das situações que mais vejo este tipo de pragmatismo é no jugo desigual. Um dia uma pessoa me disse: "Pastor, eu não concordo com essa coisa do jugo desigual, pois eu me casei com uma pessoa não crente e hoje ela está convertida!". Ok. A graça de Deus se mostrou poderosa no caso dele, mas a regra bíblica não é essa. E a Bíblia não se permitiu ser adequada às experiências que deram certo. Não é porque o seu "namoro missionário" deu certo que agora você vai sair dizendo a plenos pulmões que todos devem se casar com não cristãos e deixar o que a Bíblia diz.

Imagine bem, uma pessoa adultera repetidas vezes e, pela misericórdia de Deus, o casamento conseguiu se sustentar e os filhos não sofreram sequelas graves por causa deste erro. Seria correto dizer que todos podem adulterar porque a sua experiência de adultério não foi traumática?

A Bíblia diz o que diz e não abre precendentes para que nós demos os nossos "jeitinhos". Ela é a regra de fé e prática do cristão, não as experiências pessoais. Não somos reféns do que deu certo na vida de A ou B, mas do que a Escritura define para a nossa vida.

Infelizmente, porém, muitas pessoas continuam preferindo interpretar a Palavra de acordo com seus gostos e respostas que elas mesmas esperam. Criaram um Deus à própria imagem e semelhança e é Ele quem se rende em adoração e entrega pessoal aos caprichos desses cristãos.




Conclusão

O assunto é complicado e corrente na vida de qualquer igreja que esteja estabelecida nos nossos dias. Temos nos rendido a resultados independente de meios, numa religiosidade maquiavélica onde os fins justificam os meios.

Tudo na vida cristã, obviamente, precisa se tornar prático à vida das pessoas, mas não podemos nos tornar reféns de modinhas, desejos pessoais, status ou qualquer coisa que não seja a Escritura. Deus não tem compromisso com resultados em última análise, mas com o que Ele disse.

Abraão é uma prova disso. Deus "tardou" em mandar Isaque e Abraão foi pragmático. Deitou-se com a serva e gerou a Ismael. Funcionou. Ele precisava de um herdeiro e "fez" um, mas Deus queria Isaque, não Ismael. Porque Deus tem compromisso com sua Palavra acima de qualquer coisa.


Podemos continuar buscar nossos resultados do nosso jeito e investir no que funciona. Mas para Deus, tanto os meios quanto os resultados são imprescindíveis. Rogue a Ele e utilize-se dos meios Dele para alcançar os resultados que Ele mesmo quer!


Abração

Pr. Maicon



 

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