Contemporânea featured

SÉRIE TEOLOGIA CONTEMPORÂNEA: Teísmo Aberto

14:14Maicon Custódio

Uma coroa enferrujada é uma bela imagem para retratar o Teísmo Aberto. 
A soberania de Deus, doutrina clássica no Cristianismo histórico, é uma das que é colocada em xeque.




INTRODUÇÃO À SÉRIE
Quem nunca ouviu de um amigo ou familiar a famosa frase: "Não precisamos saber teologia". É corrente nos meios mais variados - de neo-pentecostais a neo-puritanos; de reformados a liberais - haver pessoas que se interessam por práxis religiosa (prática) em detrimento de fundamentação teológica e teórica. O que boa parte destas pessoas não percebe é que a práxis nada mais é do que mera expressão de uma teologia articulada. Enfim, você pode até não querer saber de teologia, mas sempre guiará sua vida baseado em algum modelo ou escola teológica.

Eu, por exemplo, não tenho problemas em dizer que sou presbiteriano, reformado - entenda-se calvinista - com tendências mais voltadas para Amsterdã que para Princeton, digamos. Para um entendedor isso esclarece muita coisa, mas para o leigo nem tanto. Mas, não tenho interesse em discutir aqui os modelos históricos e tradicionais da teologia protestante, mas algumas teologias mais contemporâneas. Procurarei em textos claros e objetivos - nem sempre tão curtos quanto você gostaria - explicar algumas escolas teológicas que se sobressaem nos últimos anos. Esta série sobre teologia contemporânea terá, pelo menos, cinco artigos contemplando os seguintes temas:
Teísmo Aberto
Universalismo 
Teologia da Libertação 
Teologia da Missão Integral 
Teologia Feminista

É claro que, mediante sugestões de vocês e insights futuros a lista pode aumentar, mas por hora serão estes temas. Sei que algumas das "teologias" tem pontos de contato entre si, mas mesmo assim optei por separá-las para melhor compreensão. Adianto que resolvi não abordar temas comuns do neo-pentecostalismo como o apostolado contemporâneo, confissão positiva ou teologia da prosperidade, pois julgo que já tem gente demais - e qualificada, em sua maioria - fazendo bons comentários sobre o assunto. Portanto, me limitarei a teologias contemporâneas que se identificam com o liberalismo teológico, ideologias políticas ou com pensamentos de reação à teologia ortodoxa. Adianto ainda, que serão artigos pouco maiores do que aqueles que você se acostumou a ler aqui. Dito isto, vamos ao que interessa! Espero que você leia até o final e me dê o prazer do seu comentário.



TEÍSMO ABERTO: QUE NEGÓCIO É ESSE?
Um dos expoentes do teísmo aberto, Richard Rice diz que: "Deus interage com suas criaturas. Ele não apenas as influencia, mas elas também exercem influência sobre ele". É óbvio que esta afirmação não resume o que é o Teísmo Aberto (TA de agora em diante), mas nos dá uma noção do tamanho da mudança proposta da compreensão clássica do ser de Deus.

Se falamos em termos práticos, a compreensão que se tem acerca do ser de Deus (teontologia é o termo técnico) desemboca na estrutura de toda a fé cristã. Não há como manter de pé um único ponto dentro de um sistema teológico (tomista, agostiniano, calvinista, arminiano, etc.) se não houver uma definição de quem é Deus e quais são suas características. Por isso, ainda que parece verborragia teológica, este assunto é tão importante para todo e qualquer cristão.


O TA é, então, uma nova perspectiva acerca do ser de Deus. A ideia de aberto tem a ver com uma perspectiva menos "sisuda" de Deus. Ele, dizem, não estabeleceu um futuro fechado e intransigente. Deus não é onisciente ou presciente, mas está aberto ao que o futuro reserva e vai se adequando enquanto se relaciona com a humanidade. Dentro disso, é até interessante ir à fundo na perspectiva brasileira que é irmã do TA, a chamada Teologia Relacional, - nome dado por Ricardo Gondim, seu maior proponente - que apesar das muitas semelhanças, não é tida como a mesma coisa por parte de seus idealizadores. Uma outra parente próxima - e irmã mais velha, diria - do TA é a Teologia do Processo de  Alfred North Whitehead que também defende esta ideia do Deus que vai se descobrindo.


John Frame faz algumas pontuações acerca do que vem a ser o esqueleto do TA. Resumo abaixo:

  1. O amor é a qualidade mais importante de Deus;
  2. Não se resume a cuidado, mas à sensibilidade e compreensão;
  3. As criaturas exercem influência sobre Deus;
  4. A vontade de Deus não é absoluta. A História é o resultado da cooperação Deus/homem;
  5. Deus não conhece tudo, mas vai aprendendo com o desenrolar dos acontecimentos;
  6. Em certos aspectos, portanto, Deus depende do mundo;
  7. Os seres humanos são livres no sentido indeterminista*.
Com base nisso, os defensores desta teologia tendem a "limitar" a soberania divina. Eles entendem que Deus resolve se limitar afim de que exista um mundo onde os homens desfrutem da liberdade indeterminista ou, usando o termo de Frame, liberdade libertária. Pinnock, outro adepto do TA chega a afirmar: "O que Deus quer que aconteça nem sempre se realiza por causa da liberdade humana (...). Não existe uma garantia incondicional de sucesso porque existem riscos para Deus e para a criatura".

É inegável que a perspectiva do TA torna Deus muito mais "humanizado" - para usar um termo da moda, politicamente correto. Um Deus que sofre, se surpreende, em construção, aberto a sugestões e que abre mão da soberania para exercer o seu único atributo que realmente importa: o amor. Acontece que, ainda que esta ideia de Deus seja dócil e "fácil de engolir", ela não é bíblica e por isso, o adepto do TA é inequivocamente contrário à ideia de infalibilidade da Escritura. Admitir isso faria com que sua doutrina ruísse. Na dificuldade de aceitar o Deus bíblico cria-se um ídolo à nossa imagem e semelhança.


IMPLICAÇÕES PRÁTICAS

Apesar de sucinto, creio que me fiz entendido na breve exposição do pilar básico do TA. Mas, se você é como eu, está se perguntando como isso funciona na prática e na vida cristã. Qual a mudança que isso oferece no meu cotidiano.

Primeiro, vai exigir que você mude sua postura em relação à Escritura. Não é possível admitir que a Bíblia é infalível e ao mesmo tempo assumir esta ideia acerca do ser de Deus. A Bíblia diz que não há sombra de mudança em Deus, que Ele não falha e que sabe tudo antes mesmo que aconteça. Cremos ainda que, quando se diz que ele se arrependeu ou qualquer outro sinal de mudança ou corporeidade em Deus se vê no relato da Bíblia se trata de antropopatismo e antropomorfismo que são formas verbais de se tornar compreendido algo que se deseja ensinar, mas não temos vocabulário para fazê-lo. Enfim, você precisará admitir que a Bíblia erra.

Segundo, a sua oração vai ser uma coisa no mínimo esquisita. Aquela cláusula do Pai Nosso que pede que a vontade Dele seja feita - que tem por base a onisciência de Deus - torna-se estranha, pois Ele e tão temporal e impressionável quanto eu. É um mundo bem estranho este onde Deus se relaciona comigo de tão perto, mas não me oferece, em última análise, nenhuma segurança no agora e no porvir.

Terceiro, se o TA estiver certo Satanás pode sair vitorioso no final das contas, afinal Deus está vinculado ao processo histórico e às nossas decisões, e a razão da nossa fé seria um verdadeiro fiasco. Pense bem, você creu, amou, se entregou. Cristo encarnou, morreu, ressuscitou e no fim das contas, aos 49 do segundo tempo, Satanás faz um gol de mão à la Maradona e foi tudo por água abaixo.

Quarto, perde-se qualquer ideia de absoluto no sentido pleno do texto. Este Deus do TA não é absoluto em nenhum aspecto - nem mesmo no amor. Não há objetividade moral, por exemplo, pois este Deus em construção não pode ser padrão moral. Não há sentido em crer na eternidade, pois se este Deus está no espaço-tempo, quem garante que Ele não vai se findar também? Não há garantias, não há certezas, não há chão firme: relativizou-se a única coisa, o único Ser que poderia garantir qualquer coisa com CERTEZA ABSOLUTA. Entenda a profundidade disso: Se Deus não é absoluto TUDO pode der errado e não há nada que sustente a realidade. Vivemos num mundo de desespero e insegurança.

CONCLUSÃO

Confesso que é difícil concorrer com o que se lê de TA por aí em termos de elegância e carisma. Os autores são sensíveis e poéticos. Seus escritos são doces, mostram o Deus romântico, imanente... humano. O Deus do Antigo Testamento é uma metáfora, o início de uma construção que foi se aperfeiçoando e que se humanizou totalmente em Cristo.

Mas insisto, quanto a este Deus: SOU ATEU. Um Deus que me ama cuidou de cada detalhe do meu passado, presente e futuro. Um Deus que me ama não me deixou à própria sorte e vivendo à minha própria sorte. Ele me arrancou do império de trevas, contra a minha vontade, contra a minha liberdade e me transportou para o Reino do Filho do Seu Amor.

O Deus que creio não é um coadjuvante da História, mas a fez, faz e fará cooperar para o bem da expansão do Reino Dele. É, isso mesmo, Ele é Rei, poderoso, assentado num alto e sublime trono, e, como diz Davi no Salmo 24 a Ele pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam. O Deus que eu creio pode até não ser chorão, romântico e impressionável, mas Ele ama a ponto de ter se feito carne, no Filho e por um breve tempo se humanizou sim, para depois vencer a morte e se assentar poderoso e soberano, sem surpresas ou mudanças à destra do Pai.

Cuidado com as palavras doces... às vezes elas tem gosto de fel.

Um abraço,

Pr. Maicon

____________________________________________________________

* Tem uma ideia de que o ser humano desfruta de liberdade tal que razões, causas e ambiente não tem qualquer influência de ordem definitiva em minhas decisões e atitudes. Deus não dirige o ato e as consequências das nossas escolhas. Neste caso, por exemplo, o conceito calvinista ou mesmo hobbesiano de que o homem é intrinsecamente mal, não tem papel decisivo nas escolhas dele: ele pode agir contra a sua própria natureza. Isso é liberdade.



BIBLIOGRAFIA UTILIZADA:

GRENZ, STANLEY J./OLSON, ROGER E. A Teologia do Século XX - Deus e o mundo numa era de transição. São Paulo-SP: Cultura Cristã, 2003.




FRAME, JOHN. Não Há Outros Deus - Uma Resposta ao Teísmo Aberto. São Paulo-SP: Cultura Cristã, 2006.

PIPER, JOHN./TAYLOR, JUSTIN./HELSETH, PAUL K. org. Teísmo Aberto - Uma Teologia Além dos Limites Bíblicos. São Paulo-SP: Vida Nova, 2006.


LOPES, AUGUSTUS NICODEMUSO Ateísmo Cristão e Outras Ameças à Igreja. São Paulo-SP: Mundo Cristão, 2011.



Você Poderá Gostar de:

2 comentários

  1. Como sempre, ótimo texto.
    Mas eu, extremamente ignorante a respeito do teísmo aberto, fiquei com uma dúvida: o pessoal que professa tal teologia assume o aspecto da insegurança decorrente do Deus mutável ou é uma coisa sobre a qual não se dedica muita reflexão?

    ResponderExcluir
  2. Kaline, valeu pelo comentário.
    Olha, na perspectiva deles esta insegurança é virtude. A ideia do Deus que se torna participante de nossas fraquezas até as últimas consequências.

    ResponderExcluir

Comente. Debata. Discorde. Elogie. Concorde.
Desfrute deste espaço que é seu, amado leitor.
Apenas me conservarei no direito de não responder ANÔNIMOS e conseqüentemente deletar seus comentários.

Na paz do Eterno.

Pr. Maicon

Instagram

Siga!

Formulário de contato