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Lutero e o Sapateiro

10:19Maicon Custódio

foto: Kelvin Martins

Você já deve ter ouvido ou falado uma frase do tipo: “Minha fé é uma coisa e meu trabalho é outra”; "Isso é coisa do mundo, não de Deus“ ou "Não sei o que é, mas me sinto tão bem nesta igreja...”. Já ouvi, inclusive, alguém dizendo: “Não concordo com os ensinamentos deste padre, mas sinto uma paz tão grande na hora da missa! ”. Essas expressões revelam um senso comum de pressupor uma dicotomia entre vida religiosa e vida pública, entre razão e emoção, como se elas andassem em linhas paralelas que jamais se cruzam. Aceitamos sem questionar que a ciência e a religião estão em constante briga. Parece que grande parte dos professores universitários são ateus, o que dá certa validação ao ateísmo, pois os professores ou cientistas são, teoricamente, autoridades intelectuais.

A dicotomia está tão incrustada em nossa mente que, por não sabermos como, chega a ser penoso quando tentamos aliar as duas coisas. Vamos perceber que a ideia de alocar o coração e o cérebro em níveis distintos faz parte da história da humanidade, ou seja, aquilo que concluímos ser básico na verdade é fruto da nossa era e isto não quer dizer que as coisas sempre foram assim. Ressalto, que não tenho pretensão de esgotar o assunto, mas sim, de incentivar ao leitor. Você pode estar confuso quanto a sua fé, achando que ela é uma simples quimera da imaginação; quero dar a chave de uma das portas para busca da harmonização entre fé em Cristo e as nossas ações, intervenções e reflexões sobre o mundo.

Na Grécia antiga acreditava-se, no que Platão propôs, em um Mundo Inteligível e um Mundo Sensível; o primeiro superior ao segundo. O filósofo/teólogo cristão, Agostinho, se apropria deste conceito para elaborar a sua ideia de Cidade de Deus e Cidade dos Homens. Aconselho, e se pudesse, obrigaria, a leitura do Livro, A Morte da Razão de Francis Schaeffer, lá ele mapeia as épocas mais importantes e como se entendia esta dicotomia em cada período. Posterior à Tomás de Aquino, surge o movimento renascentista do XV / XVI e o Iluminismo do século XVII / XVIII.

Se no período medieval havia uma nebulosa, mas visível, divisão Graça / Natureza (sendo a Graça a parte mais elevada), do século XV ao XVIII o homem e sua razão passam a ser personagens principais; somos nós quem ditamos as regaras do jogo agora. Deus e as coisas celestes começam a ser considerados de menor valor. Leiam, por favor, leiam! O livro indicado acima; e caso a preguiça ou a falta de coragem não impedir... leiam também, A Verdade Absoluta de Nancy Pearcey.

Quando consideramos a nossa vida pública: trabalho, faculdade e negócios como algo alheio a nossa fé em Cristo, o que seria para dar sentindo e direção as nossas ações, não passam de escolhas pessoais sem maior valor. Já percebeu que no meio evangélico moderno os cultos são regados de emoção e histeria? Perdeu-se o interesse na reflexão sobre as Escrituras; o conteúdo dos hinos não importa; basta que digam que eu serei vitorioso e que, os acordes do teclado junto as palavras de ordem do pastor me façam entrar em transe. Se o Cristianismo não é a visão que melhor explica o mundo, mas se basta em ir à igreja para me sentir melhor comigo mesmo, aconselho que procure coisas mais fáceis.

Se você já se sentiu um ignorante em uma exposição de arte moderna ou contemporânea porque não entendeu a proposta ou o significado da obra, não se sinta mal, pois a ideia é: nada é verdade, tudo não passa de impulsos nervosos do cérebro; nós somos o que somos, máquinas, produto da evolução; nossa vida e a vida de um cão são a mesmíssima coisa. A arte sempre expressou criativamente o pensamento de cada época e agora não é diferente. Se antes Deus estava num plano superior, Ele passou a ser parecido com as coisas criadas, depois menos importante que o homem, hoje, Ele não existe. Como disse Dostoievsky: "Já que Deus não existe, tudo é permitido. E já que tudo é permitido a vida não tem sentido. E já que a vida não tem sentido acaba de se tornar impossível viver."

A Reforma Protestante foi quem deu a melhor resposta para a resolução do problema. Foi um movimento que transformou a visão de mundo da sociedade no século XVI; não só espiritualmente, mas culturalmente; seu impacto se deu sobre várias áreas do pensamento: Nas artes (música, pintura, escultura e literatura), na política, nas leis e na maneira como o trabalhador se relaciona com seu ofício.

No século XIX o Sociólogo Max Webber elaborou uma tese que tinha como objetivo entender o capitalismo moderno, que "diferente do que ele chamava de o 'Capital Predador' do período medieval, era racional e possuía uma base fortemente ética em relação ao uso dos bens materiais. Neste período, os Protestantes chamados de Puritanos, eram conhecidos por serem grandes homens de negócios, juristas, poetas e escritores.

Há uma frase atribuída a Martinho Lutero que resume tudo: por ser o trabalho artesanal, até o século XVI, entendido como inferior ao intelectual, inferior até mesmo aos olhos de Deus, um sapateiro recém convertido ao protestantismo, questiona Martinho Lutero sobre o que fazer com sua profissão, a suposta resposta do reformador foi linda: “Faça um bom sapato e venda por um preço justo”.

Entenda: tudo o que você faz, se é justo, honesto, digno e é feito com a maior excelência possível, é serviço a Deus. Não precisamos viver naquele velho dualismo – que para alguns parece a última moda – para termos “momentos litúrgicos” de adoração ao Eterno. Seja, viva, faça, ame com o máximo das suas capacidades: Faça um bom sapato e vendo por um preço justo.


Kelvin Martins

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