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Cristãos e a Redação do ENEM

15:03Maicon Custódio



O que eu tenho a ver com o ENEM?
Esta pode ser a sua pergunta, afinal, o assunto não tem muita relação com religião e espiritualidade. Acontece que as redes sociais, como sempre, estão em polvorosa com o ENEM. Além dos clássicos e hilários vídeos e fotos dos atrasados e barrados nos portões, temos alguns outros fatores que são corriqueiros. O descarado viés marxista da prova (esse ano teve até Catraca Livre como fonte de questão) e o tema da redação são outros aspectos que sempre chamam a atenção.
Neste pequeno artigo quero falar acerca deste último aspecto. O tema da redação do ENEM 2016 foi “Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”. Um tema como este não está perguntando, mas afirmando que o Brasil vive uma realidade de intolerância religiosa e que é urgente traçar caminhos para combater isto. Como teólogo e pastor em pleno exercício de funções religiosas, o assunto tateia diretamente a minha área de atuação, portanto, considero que sou minimamente apto a dissertar sobre a matéria.

Uma Leitura da Realidade
Antes de tudo, porém, entendo que é necessário ter minhas bases bem definidas em relação à temática proposta. Assim como no ENEM há textos prévios que elucidam os rumos da redação e delineiam aquilo que se espera na argumentação, além de fornecer alguns dados prévios, da mesma forma, espero apresentar aqui quais são os meus pressupostos que eu levaria em consideração ao escrever a minha redação para o Exame Nacional do Ensino Médio, de onde saí em 2003.
 Primeiro, creio que no Brasil existe um ambiente favorável à diversidade religiosa. Ao contrário das ditaduras teocráticas no Oriente Médio, aqui há um cenário de relativa tolerância. O canal humorístico mais famoso do país tem cerca de um terço de seus vídeos alfinetando católicos, protestantes, a Bíblia e dogmas religiosos. A maior rede de televisão do Brasil exibe pelo menos uma novela ou minissérie com viés kardecista por ano. Um dos nossos estados mais queridos, a Bahia, é naturalmente associado às religiões de matriz africana, sem que isso culmine em agressões intolerantes aos baianos. Nossa maior, mais rica e populosa cidade tem grande participação de israelitas (judeus), italianos (católicos) e libaneses (muçulmanos) em sua constituição. A região sul do país foi grandemente povoada por alemães, poloneses, austríacos, sendo muitos deles de origem luterana. A cada réveillon são milhares de pessoas de todo o país depositando no mar as suas oferendas a Iemanjá, uma divindade ligada também aos cultos afro-brasileiros.
Em segundo lugar, preciso externar minha preocupação com a concepção corrente de estado laico. Para muitos, isso significa estado ateísta ou até mesmo antirreligioso. Na verdade, tem a ver com estado sem tutela de religião alguma, ou seja, sem religião oficial. O estado laico não obstrui ou privilegia qualquer religião de se estabelecer do país, nem mesmo obrigado um ateu a professar alguma religião. Para mim, no parágrafo que escrevi acima, fica bem claro que não sofremos com falta de pluralismo, muito menos com intolerância sistêmica, apesar de reconhecer que há exageros em alguns guetos, intolerância de indivíduos ou grupos pontuais, mas dizer que somos um país com uma cultura de intolerância religiosa me soa não apenas como risível, mas também como um argumento de enorme desonestidade.
Meu terceiro ponto vai ao cenário mundial. Atualmente estima-se que são assassinados cerca de 100 mil cristãos por ano em virtude de sua fé. Boa parte destes homicídios ocorrem nas ditaduras islâmicas do Oriente Médio, na Coréia do Norte e na Nigéria. Há relatos de meninas sendo vendidas para fins sexuais, crucificações e trabalho escravo. Isto sim é digno de ser chamado de intolerante. O que dizer do desejo insaciável dos islâmicos do Hamas pelo derramamento de sangue israelense? Não seria intolerância religiosa? E das cidades francesas onde existem tentativas de se aplicar a sharia, a lei civil islâmica. Mas intolerante é a freira ou a senhora de saia longa e coque no cabelo, dizem os especialistas.
Meu quarto e último ponto é um olhar para a história. Quem alfabetizou o Brasil quando sequer existiam escolas públicas nos mais longínquos rincões deste país? Foram instituições e líderes cristãos. Os padres e freiras tinham grande apreço pela educação e fizeram muito neste sentido. Falo pela Igreja Presbiteriana do Brasil, que fundou escolas em várias cidades e estados, bem como a Universidade Mackenzie, uma das mais respeitadas do país. Os religiosos brasileiros investem grandemente em ação social: são asilos, orfanatos, casas de caridade, centros de recuperação de dependentes químicos, fornecimento de cestas básicas a famílias vulneráveis, albergues, sopas e agasalhos a moradores de rua. Em suma, amor e cuidado. É disso que mais se vê nos brasileiros que professam suas mais variadas religiões.

Suas ideias não correspondem aos fatos
Os acadêmicos que pensam a nossa educação precisam sair das suas torres de marfim e ter contato com a vida real. Eles têm se esforçado para provar que o Brasil é um país com uma forte cultura de estupro, de agressores de mulheres, de religiosos intolerantes e homofóbicos, de uma elite branca racista, de homens e empregadores de posição sexista, de um sul-sudeste xenófobo.
Dos mais recentes presidentes do Brasil temos umbandista (Collor), ateus/agnósticos (Dilma e Fernando Henrique), católico nominal (Lula), protestante (Geisel), mas, continuarão a insistir na falácia de que somos um país de intolerância religiosa. O simples fato do tema do ENEM tentar colocar este rótulo em nossa sociedade mostra o quanto a nossa educação anda distante da vida real em aspectos sociológicos e filosóficos. A ideologia tem precedido a lógica dos fatos, infelizmente.
A geração atual, desses meninos e meninas que não desceram para o playground, que dormem em colchão anti-ácaro e usou Merthiolate que não arde, vai sendo bovinamente influenciada pela visão politicamente correta de mundo. Nesta concepção, discordar é preconceito, discutir é violência. São frutos da mesma confusão semântica em que invadir é sinônimo de ocupar. Oro por esses jovens, converso com eles e torço por eles. Talvez ainda haja alguma esperança.
  
Conclusão
Enfim, dada a minha cosmovisão e minha postura pouco simpática ao status quo, é bem provável que minha redação, caso tivesse participado da prova deste ano, não agradasse muito às bancas corretoras do ENEM. Não tenho compromisso com a intelligentsia vigente. Diferente da maioria das pessoas com maior grau de instrução do Brasil, não sou de esquerda (me alinho mais ao conservadorismo inglês). E por isso não posso permitir que um evento como este, que tenta rotular os cristãos como intolerantes, passe imune frente aos meus olhos.
O conservador entende que o Ocidente (leia-se a cultura e a sociedade ocidentais) foi criado sobre a moralidade e religião judaico-cristã, o direito romano e a filosofia grega. O que o conservador deseja conservar são essas instituições provadas pelo tempo e que saíram vitoriosas sobre o teste do tempo e, mais que isso, nos carregaram nos ombros nessas vitórias.
Gradativamente vamos perdendo o contato com estas raízes ocidentais. Nossa filosofia vai se tornando cada vez mais avessa a qualquer ideia metafísica (conceito riquíssimo nos filósofos gregos), nosso direito tem se tornado cada vez mais um jogo de cartas marcadas e profundamente ideologizado e a nossa religião cristã, com sua vasta riqueza de moral plenamente humana e redentiva vai sendo substituída pelo relativismo e multiculturalismo.
O que mais me assusta é ver cristãos católicos e protestantes que, diante da iminente destruição do que foi construído a preço de sangue, suor e lágrimas durante milênios, vão comprando este discurso fajuto de que: “O Brasil é um país intolerante”.
Que Deus tenha piedade do Brasil,



Pr. Maicon.

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4 comentários

  1. Ótima reflexão Maicon.
    Sua redação foi aprovada com nota máxima. Rsrs

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  2. É claro que seu raciocínio não iria agradar a bancada de avaliação do ENEM, infelizmente vemos o que esta contecendo e não podemos jamais nos calarmos diante dos fatos. Parabéns pelo conhecimento adquirido e que Deus continue abençoando sua vida.

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  3. Parabéns meu caro! Não podemos mesmo nos calar!

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Desfrute deste espaço que é seu, amado leitor.
Apenas me conservarei no direito de não responder ANÔNIMOS e conseqüentemente deletar seus comentários.

Na paz do Eterno.

Pr. Maicon

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